Em meio aos recentes casos de
estupro coletivo envolvendo adolescentes no Rio, a violência dos crimes expôs
um comportamento que especialistas dizem estar cada vez mais presente entre
jovens: a misoginia. O termo define o desprezo ou o ódio contra mulheres e
aparece com frequência em comunidades online da chamada “machosfera”, espaços
que propagam discursos machistas e de subjugação contra a mulher. Especialistas
destacam que o ambiente digital é propício para a disseminação desses conteúdos
e o acesso precoce à pornografia pode contribuir para o fenômeno.
Durante depoimento na CPI do
Crime Organizado, na terça-feira, a juíza titular da Vara da Infância e
Juventude do Rio, Vanessa Cavalieri, afirmou que esse tipo de comportamento tem
aparecido com mais força entre adolescentes. A magistrada fez referência a estudos
da escritora e pesquisadora britânica Laura Bates, que, em entrevista à BBC,
afirmou que há um “movimento de radicalização em massa” de meninos e
adolescentes, atraídos para comunidades online misóginas por meio dos
algoritmos das redes sociais.
No Brasil, os dados da Central
Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, mantida pela SaferNet Brasil,
ajudam a dimensionar o problema. O levantamento mostrou que as denúncias de
misoginia na internet cresceram 224% em 2024 na comparação com 2023. No mesmo
período, os registros de crimes de ódio online aumentaram 54%.
Para a psicóloga da SaferNet
Brasil, Bianca Orrico, a combinação entre a vulnerabilidade dos jovens e o
funcionamento das redes sociais cria um ambiente propício para a disseminação
desses conteúdos.
— A internet tem refletido e
amplificado desigualdades e violências que mulheres e meninas já enfrentam fora
dos ambientes digitais. O crescimento dessas denúncias mostra uma maior
circulação de conteúdos que desumanizam mulheres, sexualizam meninas e promovem
narrativas de ódio consumidas por adolescentes em redes sociais, fóruns e
comunidades online — explica.
Pornografia precoce
O acesso cada vez mais cede à
pornografia foi outro ponto discutido na CPI. De acordo com a juíza Vanessa
Cavalieri, muitas das violências sexuais são filmadas pelos adolescentes, o que
permite observar que frequentemente reproduzem comportamentos vistos em
conteúdos pornográficos.
— Algo que me chama a atenção
nesses casos, em todos eles, porque os senhores sabem que quase sempre os fatos
são filmados, e a gente vê o vídeo do ato infracional da violência sexual.
Claramente esses meninos estão reproduzindo uma cena que eles viram num filme,
num vídeo de sexo explícito pornográfico. Então há uma repetição de um
comportamento de algo que eles não deveriam nem estar tendo acesso — disse a
magistrada aos senadores.
Para a psicanalista Mayara
Bichir, doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, o acesso precoce
a pornografia, somado ao consumo de outros conteúdos misóginos em redes sociais
ou até mesmo em conversas com amigos, pode ser um dos pontos determinantes para
contribuir para o pensamento de objetificação da mulher. Assim, o jovem passa a
reproduzir falas e comportamentos problemáticos.
Ainda destaca que o problema está
no fato de muitos adolescentes consumirem esses conteúdos antes de desenvolver
senso crítico sobre relações e consentimento.
— A pornografia coloca a mulher nesse
lugar de objeto. O acesso precoce é pior porque os jovens não têm senso crítico
para se diferenciar daquilo que estão acessando. O adolescente ainda está
começando a se colocar como pessoa no mundo — alerta.
Ciclo de exposição
Entre os grupos mais conhecidos
desse universo machista estão os Red Pill, que disseminam ideologias machistas
com o discurso de “despertar para a realidade”, em referência ao filme Matrix
(1999), no qual a pílula vermelha revela a verdade, enquanto a azul mantém na
ilusão. Também fazem parte desse ecossistema os incels — “celibatários
involuntários”, homens que dizem ser incapazes de encontrar parceiras
românticas ou sexuais — e o movimento Men Going Their Own Way (MGTOW), que
prega o afastamento de relacionamentos com mulheres.
A aproximação de adolescentes com
esses grupos costuma começar com frustrações pessoais. Essas comunidades atraem
jovens que enfrentam inseguranças sociais ou rejeições e passam a direcionar a
culpa para mulheres ou para o feminismo.
— Parte desses conteúdos circula
e transforma frustrações pessoais, como rejeição afetiva ou inseguranças, em
discursos que culpabilizam as mulheres. Para adolescentes que ainda estão
desenvolvendo habilidades socioemocionais, essas explicações simplistas podem
parecer muito convincentes e sedutoras. Parte de um princípio de comunidade em
que esses meninos se tornam apoiadores uns dos outros — analisa Orrico.
O formato das plataformas
digitais também contribui para a disseminação dessas ideias. Segundo a
psicóloga, vídeos curtos, memes e conteúdos apresentados como humor ou
motivação masculina ajudam a normalizar discursos de ódio.
— Muitos são apresentados como se
fossem bem-humorados, por meio de memes ou discursos motivacionais que ensinam
como homens devem agir diante do “objeto de desejo” que é a mulher. As
plataformas tendem a recomendar conteúdos semelhantes, o que leva o adolescente
a entrar em um ciclo de exposição cada vez maior — explica.
Masculinidade
Além das frustrações usadas por influenciadores para atrair os jovens, Bichir
destaca que esse tipo de discurso também está ligado à forma como a
masculinidade é construída socialmente. Normalmente, homens tendem a negar suas
vulnerabilidades desde cedo. Nesse momento de construção de identidade,
discursos misóginos podem funcionar como uma espécie de “manual de
comportamento”.
— A masculinidade é justamente
uma negação da vulnerabilidade, disso que nos faz humanos. A gente vive numa
sociedade onde a ideia de que você tem que ser autossuficiente e não pode
depender de ninguém é muito forte. A adolescência é uma etapa em que o jovem
está se desprendendo dos pais e tentando encontrar um caminho próprio, um
momento de muita afirmação de si — diz Mayara.
Para enfrentar o problema é
preciso atacar em diferentes frentes. Entre elas estão maior regulação das
plataformas digitais e um acompanhamento mais próximo dos pais sobre o que
adolescentes consomem na internet.
— Mais importante do que
identificar sinais é abrir espaço para o diálogo. Perguntar de onde vêm essas
ideias, discutir criticamente os conteúdos e acompanhar o que estão consumindo
online. A desconexão parental é perigosa porque a internet é um lugar sem lei,
sem regulação. É fundamental o acompanhamento constante, sem julgamento, mas
com entendimento de que tipo de conteúdo está povoando o mundo desse
adolescente — conclui Mayara.
Fonte: Folha de Pernambuco.






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