O deputado federal Pedro
Paulo (PSD-RJ), relator da reforma administrativa disse ao Estadão que a
decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF) de
determinar a suspensão de pagamentos de penduricalhos pelos Três Poderes,
poderá fazer acelerar a tramitação da proposta na Câmara.
Ele, que estava descrente que o
tema pudesse sequer entrar em pauta neste ano, agora crê que há uma razão para
o Parlamento votar a matéria.
"O ambiente que você tinha
no passado, que você tinha ontem, da política querendo empurrar para frente,
'vamos falar depois da eleição', a decisão do ministro Dino pode ir ao
contrário e acelerar essa discussão", afirmou.
O texto da reforma administrativa
prevê o fim dos penduricalhos e um limite no salário de funcionários públicos.
Benefícios fora do teto deverão ser transitórios e pagos em situações
excepcionais, e não mais a todos os servidores de uma categoria de forma indistinta
e generalizada, como acontece atualmente. Nesse caso, as verbas que podem ser
pagas fora do limite deverão ser aprovadas em lei pelo Congresso Nacional.
O placar do Estadão revelou que
217 dos 513 deputados federais são favoráveis à extinção de remunerações pagas
acima do teto salarial do funcionalismo público, os chamados supersalários,
presente no texto da reforma administrativa.
Pela decisão, os pagamentos de
adicionais que não estão previstos em lei devem ser suspensos após 60 dias. Até
lá, os Três Poderes deverão rever todos os itens pagos como adicionais
salariais e que acabam contribuindo para que vencimentos no funcionalismo
ultrapassem o teto que é o salário de um ministro do STF, equivalente hoje a R$
46,3 mil.
Dino defendeu que o Congresso
regule uma lei que defina quais são as verbas indenizatórias "realmente
admissíveis como exceção ao teto e ao subteto".
Ele intimou o presidente da
República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e os presidentes do Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para que
tomem as medidas políticas para suprir a omissão inconstitucional.
A decisão de Dino foi bem
recebida por Pedro Paulo. Ele acredita que uma ação "excepcional,
moralizadora, provoca o debate e é corajosa”. “Fiquei feliz que ele traz no
texto elementos que tratei na reforma", afirmou. “Essa decisão reflete a
indignação da sociedade."
Para o parlamentar isso também é
fruto da indisposição da elite do funcionalismo público em dialogar com o
Congresso para encontrar uma solução pelo consenso no Legislativo.
"Essa negativa da política
(por representantes da elite dos servidores públicos brasileiros) em negociar
dá nisso. Veio aí uma decisão extemporânea. Se não foi por bem, vai à força, ao
invés de fazer no ambiente do Parlamento. A negativa desses segmentos não
quererem negociar acaba nisso", afirmou.
Ele acredita que haverá reação e
por isso a determinação é "corajosa". "O ministro jogou uma
granada. Jogou uma bomba com efeito nuclear. A quantidade hoje dessa elite do
servidor que recebe esses penduricalhos é muito grande. Vai ter uma fortíssima
reação. Por isso é corajosa. Aliás a decisão é mais radical que um texto, que
tem um aspecto negociado", disse.
Antes da determinação, Paulo
acreditava que a reforma dificilmente avançaria na Câmara, e que em ano
eleitoral dificilmente os parlamentares vão querer tratar de temas espinhosos
que envolvem corte de supersalários e penduricalhos do funcionalismo público.
Entre os governistas, a
determinação do ministro do STF foi celebrada. "Nós aplaudimos a decisão
do ministro Flávio Dino, e ele na verdade se antecipa a uma decisão que o
presidente Lula já tinha tomado, de vetar todos os aumentos acima do teto, seja
do Judiciário, do Legislativo. Essa coisa o presidente ia fazer. Nós da bancada
temos uma proposta, para que nenhum servidor ganhe acima do teto e a sociedade
vai aplaudir", afirmou Lindbergh Farias (PT-RJ), que foi líder do PT na
Casa até o final de janeiro.
O líder do PDT na Câmara, Mário
Heringer (MG) vê com bons olhos a decisão do ministro Flávio Dino e crê que
pode dar impulso para a reforma administrativa neste ano. "Eu acredito que
pode ajudar a avançar a reforma administrativa. Agora é um texto difícil,
porque interesses de tudo quanto é Poder. E quando tem muito interesse, tem
muita dificuldade de concatenar interesses e sair uma coisa razoável. Mas de
certa forma possibilita avanço", afirmou.
A determinação teve boa
repercussão até mesmo na oposição. "É uma avaliação correta, da
transparência, da moralidade e do cumprimento daquilo que está previsto na
Constituição. Sempre se cria uma artifício para furar esse limite", disse
o deputado federal Mendonça Filho (União-PE), que fez críticas ao governo.
"O governo do PT nunca olhou pra isso, deixou isso de lado."
Já o senador Carlos Portinho
(RJ), líder do PL no Senado afirmou que é uma "decisão que tem que ser
elogiada". "Temos cobrado, eu pessoalmente na CCJ, em todas as
reuniões, o avanço do fim dos penduricalhos", afirmou. Um projeto sobre o
tema tramita nessa Casa - essa matéria já tinha sido aprovada na Câmara em 2021
e está travada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) desde aquele ano.
"A decisão vem em boa hora e
obriga o Parlamento a se manifestar a avançar num projeto de lei. Não dá",
disse o senador.
A avaliação inicial de outros
líderes da Câmara é que não deverá haver maior reação do Parlamento dada a
popularidade do tema do fim dos supersalários e pelo entendimento que o
Congresso Nacional não é o maior beneficiário disso.
Apesar dos pontos elencados,
nesta última terça-feira, 3, um projeto de lei que concede reajuste
"fura-teto" no salário de servidores da Câmara e outra proposta que
estabelece um novo plano de carreira para servidores do Senado, também com
reajustes na remuneração.
Com essa nova gratificação, um
salário de um servidor da Câmara pode chegar aos R$ 77 mil.
Fonte: Diário de
Pernambuco.