O avanço da obesidade no Brasil
deixou de ser uma tendência silenciosa e passou a ocupar o centro das
preocupações em saúde pública. Os dados mais recentes do Ministério da Saúde
mostram que, em menos de duas décadas, o índice de obesidade mais que dobrou no
país, evidenciando mudanças profundas no modo de viver, comer e se movimentar
da população brasileira. Trata-se de um fenômeno que vai além das estatísticas
e revela um desafio estrutural para o sistema de saúde e para a qualidade de
vida dos cidadãos. Hoje, mais da metade dos adultos brasileiros convive com
excesso de peso. Esse dado não pode ser tratado como uma questão individual ou
meramente estética, pois a obesidade está diretamente associada ao aumento do
risco de doenças crônicas, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial e
problemas cardiovasculares. O crescimento dessas enfermidades acompanha, de
forma quase paralela, a elevação dos índices de obesidade, pressionando os
serviços de saúde e ampliando os custos com tratamentos de longo prazo.
Hábitos - Parte desse
cenário pode ser explicada pelas transformações nos hábitos cotidianos. O
deslocamento ativo, que antes fazia parte da rotina de muitos brasileiros,
perdeu espaço. Caminhar ou pedalar para o trabalho tornou-se menos comum,
contribuindo para um estilo de vida mais sedentário. A ausência desse movimento
diário, somada a longas jornadas de trabalho e ao uso excessivo de telas, cria
um ambiente favorável ao ganho de peso e à piora dos indicadores de saúde.
Treinos - Ao mesmo tempo,
observa-se um aumento na prática de atividade física durante o tempo livre, o
que indica uma maior conscientização sobre a importância do exercício. No
entanto, esse avanço ainda não consegue neutralizar outros fatores de risco
presentes no cotidiano, como a alimentação desequilibrada, o estresse constante
e a privação de sono. O resultado é um paradoxo em que parte da população se
exercita mais, mas continua exposta a comportamentos que comprometem o
metabolismo e o controle do peso.
Alimentação - A alimentação
segue como um dos pontos mais sensíveis dessa equação. O consumo de frutas e
hortaliças permanece abaixo do ideal e praticamente não evoluiu ao longo dos
anos. Embora haja uma redução significativa na ingestão de refrigerantes e bebidas
açucaradas, esse movimento, por si só, não garante uma melhora consistente do
padrão alimentar. A presença de produtos ultraprocessados no dia a dia ainda é
elevada e influencia diretamente o ganho de peso e o desenvolvimento de doenças
crônicas.
Sono - Outro aspecto que
passou a ganhar destaque é o sono. Dormir pouco ou mal deixou de ser exceção e
se tornou parte da rotina de muitos brasileiros. A privação de sono interfere
na regulação hormonal, aumenta o apetite, favorece a resistência à insulina e dificulta
o controle do peso corporal. A alta prevalência de insônia, especialmente entre
as mulheres, reforça a necessidade de olhar para o sono como um pilar essencial
da saúde, e não como um detalhe secundário.
Diante desse panorama, fica
evidente que o enfrentamento da obesidade no Brasil exige uma abordagem ampla e
integrada. Não basta recomendar dieta ou atividade física de forma isolada. É
preciso investir em políticas públicas que promovam ambientes mais saudáveis,
facilitem escolhas conscientes e ampliem o acesso à informação e ao cuidado
contínuo. Sem uma mudança estrutural e coletiva, os números tendem a continuar
crescendo, assim como os impactos sobre a saúde da população e a
sustentabilidade do sistema público.
Fonte: Folha de Pernambuco.





