O Caso Master, considerado a
maior fraude financeira da história do Brasil, iniciou em novembro de 2025, com
a primeira fase da Operação Compliance Zero. Desde então, já foram quase dez
fases da operação, inúmeras quebras de sigilo, revelação de milícia para coagir
desafetos e uma capilaridade do dono do Master, Daniel Vorcaro, que envolve os
meios jurídico, político e empresarial do país.
As revelações do caso levaram a
uma crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF), sobretudo após o
material periciado do celular do banqueiro revelar mensagens, contratos e
relações próximas entre Vorcaro e vários ministros da Corte. Após a aposentadoria
do ministro Luís Roberto Barroso, que ainda não teve a cadeira preenchida, o
STF tem dez ministros, destes seis foram citados nominalmente ou tiveram
familiares citados por alguma relação com o dono do Master.
Na última sexta-feira (18), o
presidente Lula (PT), afirmou que Vorcaro "corrompeu todo mundo”. “Se você
for ver as fitas que estão sendo degravadas do celular dele, ele corrompeu todo
mundo, patrocinava orgias, trazia mulheres da Suécia, da Suíça, não sei de
onde, para os bacanas brasileiros que gostam dessas coisas. Ele envolveu gente
da Suprema Corte, deputados, senadores, todo mundo", disse.
Entre os ministros do STF que
aparecem no caso Master estão Alexandre de Moraes,
André Mendonça, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Além deles, foram citados os
filhos de Kassio Nunes Marques, que atualmente é o presidente do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), e Luiz Fux. Cármen Lúcia, Cristiano Zanin, Edson
Fachin e Flávio Dino são os demais ministros que compõem a Corte e não foram
citados.
STF pode abrir investigação de
colegas
Na última terça-feira (15), o
Supremo realizou um julgamento inédito em seus 135 anos de história ao avaliar
a possibilidade de abrir um processo contra Moraes por conta das conversas do
ministro com o banqueiro. Marcada por bate-boca e acusações entre os
magistrados, a sessão foi encerrada com um pedido de vista do ministro Flávio
Dino.
O relatório da Polícia Federal
que seria avaliado pelos ministros tem 218 páginas. Segundo o documento, foram
encontradas 52 mensagens de Vorcaro para Moraes entre 28 de outubro e 17 de
novembro de 2025, dia em que o dono do Master foi preso pela primeira vez. Nas
conversas, Vorcaro solicita orientação jurídica e pede ajuda a Moraes para se
blindar das investigações.
Na próxima terça-feira (23),
haveria uma sessão para avaliar a conduta do ministro André Mendonça enquanto
relator do Caso Master. O processo, no entanto, foi retirado de pauta pelo
presidente do STF, Edson Fachin, na última quinta (17).
O pedido de investigação
formulado por Alexandre de Moraes, que argumenta que Mendonça teria direcionado
e mantido sob sigilo indícios para atingir um colega de corte (o próprio
Moraes), sem remeter o caso diretamente ao Plenário do STF, que seria a
instância competente. Mendonça nega qualquer irregularidade.
Saiba quais ministros foram
mencionados
Alexandre de Moraes
Citação nominal
Dados obtidos do celular de
Daniel Vorcaro revelaram registros de troca de mais de 50 mensagens. Segundo a
PF, Vorcaro escrevia as mensagens no bloco de notas, dava print e enviava a Moraes
por visualização única. No dia da prisão, em 17 de novembro de 2025, Vorcaro
perguntou a Moraes: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Fiz o que deu,
vou anunciar parte da transação. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia de
bloquear?”.
Como as respostas foram enviadas
pelo mesmo sistema, não se sabe exatamente o que Moraes respondeu. Moraes ainda
teria ajudado o banqueiro a organizar o I Fórum Jurídico - Brasil de Ideias,
realizado em Londres entre 24 e 26 de abril de 2024, com presença de diversas
autoridades, incluindo ministros do Supremo.
Relação familiar
Relatórios da Polícia Federal
(PF) indicaram a existência de um contrato de prestação de serviços
advocatícios firmado entre empresas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro e o
escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Moraes.
A apuração apontou contratos com
previsão de repasses no valor total de R$ 131 milhões (com parcelas mensais de
R$ 3 milhões), além de negociações paralelas de propostas de R$ 50 milhões
envolvendo ativos como cotas de aeronaves. A investigação apontou ainda, após
obter registros digitais e metadados de arquivos, que Moraes foi responsável
por editar o documento do contrato de R$ 131 milhões.
Defesa
O ministro negou categoricamente
ter recebido mensagens no dia da prisão do banqueiro e afirmou que são “diálogos
fantasiosos”. Moraes ainda explica que o trabalho profissional prestado pelo
escritório de sua esposa pertence à esfera privada, sem qualquer interferência
na sua atuação jurisdicional ou em decisões do STF.
André Mendonça
Citação nominal
Registros e mensagens anexados ao
inquérito indicaram reuniões reservadas mantidas entre Vorcaro e o ministro
André Mendonça no Instituto Iter, do qual o ministro era sócio até este ano. Na
última quinta (17), foi revelado que o Iter recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro
Participações, holding controlada pelo empresário mineiro Lucas Kallas,
ex-parceiro de Vorcaro. Mendonça tornou-se o relator do caso no STF e
determinou a retirada do sigilo dos relatórios policiais e movimentações
financeiras do processo.
Defesa
Mendonça admitiu ter encontrado
Vorcaro em março de 2025, no entanto, ressaltou que a conversa esteve limitada
a uma ação sobre precatórios que estava em julgamento pelo STF. Segundo
Mendonça, o banqueiro foi recebido “única vez” e “por iniciativa do próprio empresário”.
O ministro ainda sustentou que todas as suas deliberações como relator buscam
assegurar a transparência das apurações, o devido processo legal e o direito de
acesso à informação.
Dias Toffoli
Citação nominal e familiar
É o único ministro cujo nome
consta em diálogos de organização da festa promovida por Vorcaro no Madame Satã
(SP) em 31/10/2023. O interlocutor, ex-ministro das Comunicações no governo de
Jair Bolsonaro, Fábio Faria, escreveu a Vorcaro que "Toffoli também vai
tentar" comparecer após presidir sessão no tribunal. Não há registros de
que tenha comparecido.
A citação do ministro no caso
também envolve os irmãos dele. Irmãos e parentes de Toffoli eram donos de uma
fatia do Tayayá Aqua Resort, localizado no Paraná, por meio da empresa familiar,
da qual Toffoli admitiu ser sócio oculto.
Em 2021, essa parte do resort foi
vendida para fundos de investimento e as investigações apontam que esses fundos
tinham ligações com o círculo de Vorcaro e com a gestora Reag, unindo
indiretamente os negócios da família do ministro aos investigados. As
transações envolveram valores que ultrapassam os R$ 20 milhões.
Defesa
Declarações oficiais e sua
assessoria negaram qualquer presença no evento de Halloween, justificando que
cumpria agendas institucionais. O ministro ressaltou que “nunca recebeu
qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel” e afirmou
ter declarado à Receita Federal os valores recebidos na negociação de venda do
resort. O ministro declarou-se suspeito no processo para resguardar a
imparcialidade dos julgamentos.
Gilmar Mendes
Citação nominal
O nome do ministro foi mencionado
em trocas de mensagens no celular de Vorcaro relativas ao envio de um convite
para o I Fórum Jurídico - Brasil de Ideias, realizado em Londres, sem indicação
de ilicitudes ou repasses financeiros em seu nome. Na última sexta (18), foi
divulgado que Mendes e Vorcaro se encontraram no dia 11 de abril de 2024 no
gabinete do ministro no STF.
O encontro ocorreu antes do
julgamento de uma causa relacionada às usinas do setor sucroenergético - o
ministro votou contra o pagamento do precatório, no sentido defendido pela
União e contra os interesses do banqueiro.
Defesa
Em relação ao evento em Londres,
o ministro destacou no plenário a lisura de sua atuação acadêmica, ressaltando
que citações secundárias por terceiros não evidenciam vínculo com investigados.
Sobre o encontro em 2024, Mendes afirmou em nota que “foi realizado na sede do
Tribunal, em ambiente institucional, e não em espaço privado”.
Kassio Nunes Marques
Citação nominal
O nome do ministro foi citado
indiretamente em mensagens de terceiros. Na última sexta (18), foram reveladas
novas mensagens do celular de Vorcaro em que ele teria alugado “a melhor casa
do Rio de Janeiro”, avaliada em cerca de R$ 250 milhões, no Carnaval de 2025
para hospedar o ministro “KN”. Segundo relatório da PF, “KN” seria Kassio Nunes
Mares.
Relação familiar
Relatórios da PF transcreveram
diálogos mencionando repasses financeiros (com menções a "R$ 500 mil
mês") destinados ao advogado Kevin Marques, filho do ministro. De acordo
com as citações, os valores eram relativos a honorários por consultoria
jurídica e serviços em matéria tributária administrativa.
Defesa
Em manifestação no plenário do
STF na terça (15), o ministro afirmou publicamente que seu filho jamais prestou
serviços ao Banco Master. A defesa do advogado declarou que os valores
recebidos referem-se a honorários por serviços prestados na área privada, sem
qualquer vínculo com a instituição financeira ou com o tribunal. Já em nota à
imprensa, Nunes Marques declarou que “nunca trocou mensagens com Daniel Vorcaro
nem pediu nada a ele”.
Luiz Fux
Relação familiar
Apurações policiais registraram
trocas de mensagens entre Daniel Vorcaro e o advogado Rodrigo Fux, filho do
ministro, demonstrando intimidade na relação entre os dois. No dia 17 de maio
de 2024, por exemplo, Rodrigo escreveu: ”Fala irmão. Tudo bem?”. Cerca de dez segundos
depois, Vorcaro respondeu: “Fala amigo. Tudo certo?”. Além disso, o filho do
ministro também teria atuado para articular um encontro de Luiz Fux com o
banqueiro no I Fórum Jurídico - Brasil de Ideias, em Londres, patrocinado de
forma oculta pelo Master.
Defesa
A assessoria do ministro e a
defesa pontuaram que o advogado Rodrigo Fux atua em banca privada independente,
afirmando que contatos profissionais do filho não exercem ingerência sobre os
julgamentos de seu gabinete. Em nota, a Fux Advogados ressaltou que “nunca
advogou, fez qualquer proposta de trabalho ou recebeu qualquer valor de Daniel
Vorcaro ou do Banco Master” e que as tentativas por parte do banqueiro de
estabelecer uma aproximação comercial jamais se concretizaram.
Fonte: Diário de Pernambuco.