O ataque registrado
dentro da Escola de Referência em Ensino Fundamental e Médio Cristiano Barbosa
e Silva, em Barreiros, na Mata Sul de Pernambuco, na última semana, deixou três
alunas feridas e mostrou lacunas no acompanhamento de conflitos entre
estudantes e na estrutura de proteção dentro das escolas. Para o economista e
especialista em políticas públicas e membro da ONU Jefferson Lucas, a situação
tem impactos na vida adulta, no desenvolvimento profissional e no mercado de
trabalho.
O caso aconteceu em sala de aula
quando um adolescente de 14 anos, aluno do 1º ano do ensino médio, entrou na
unidade com uma faca e feriu três colegas, com idades entre 11 e 13 anos. Uma
das vítimas foi socorrida em estado mais grave e segue internada no Hospital da
Restauração (HR), no Recife, após apresentar comprometimento nos movimentos das
pernas. As outras duas estudantes já receberam alta.
O jovem foi apreendido pela
Polícia Militar e permanece sob internação provisória, conforme prevê o
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por até 45 dias. Informações do
Conselho Tutelar e da família indicam que ele vinha sendo alvo de bullying há
anos, elemento que passou a ser considerado central para a compreensão do
episódio.
Na avaliação do economista Jefferson
Lucas, o impacto da falta de acompanhamento não se limita ao ambiente escolar e
tende a se prolongar ao longo da vida desses jovens. “Esses jovens, daqui a
alguns anos, estarão no mercado de trabalho, serão pais. Como alguém que não
foi cuidado vai conseguir cuidar de outra pessoa? Quem não foi tratado não
consegue ajudar o outro da forma adequada. Os impactos são de longo prazo.”
Jefferson Lucas também chama atenção para efeitos menos visíveis, como os
impactos econômicos associados à violência escolar.
“A violência escolar aumenta a
evasão, reduz a produtividade no futuro e compromete o desenvolvimento do
capital humano. Uma pessoa que não recebeu apoio adequado terá prejuízos no seu
desenvolvimento. Ou seja, não é apenas um problema social, e isso é muito
importante, mas também um problema de desenvolvimento do país.”
Esse cenário, segundo ele, acaba
gerando um efeito em cadeia que ultrapassa os limites da escola e alcança toda
a sociedade. “O impacto econômico e social funciona como um efeito dominó.
Aumenta a sensação de insegurança na comunidade. Os pais deixam de confiar na
escola, que deveria ser um ambiente seguro. Isso pressiona o sistema público,
gera mais demanda na saúde, na segurança e na assistência social”, diz.
Falhas no sistema
A partir desse contexto, o
economista Jefferson Lucas avalia que o episódio aponta falhas acumuladas na
forma como o ambiente escolar lida com situações de exclusão e violência. “Esse
não é o momento de procurar culpados. Quando a gente soma esforços, ou seja,
deixa de lado a polarização e as disputas, a gente consegue avançar e enxergar
falhas sociais, emocionais e institucionais. Esse problema não é individual,
ele é uma falha de estrutura”, afirma.
Na avaliação do especialista, o
episódio de Barreiros poderia ocorrer em outras escolas do país, justamente
pela ausência de mecanismos articulados de prevenção e acompanhamento.
“Esse exemplo da escola em
Barreiros poderia ser replicado em outras escolas, e isso mostra justamente
essa falha estrutural. Falta uma rede integrada de proteção envolvendo escola,
família, poder público e profissionais especializados. No Brasil, de forma
geral, ainda se trata a saúde emocional dentro das escolas como algo
secundário, sem a devida importância e valorização”, observa.
O histórico de bullying, apontado
por familiares do adolescente, é interpretado por Jefferson Lucas como parte de
um processo que se desenvolve ao longo do tempo, muitas vezes sem intervenção
adequada. Segundo ele, o problema começa em situações anteriores que acabam
ignoradas ou subestimadas.
“Neste caso, o agressor também já
foi vítima. Segundo a própria avó, ele já vinha sofrendo há anos. Isso vai se
acumulando até chegar a um ponto de esgotamento. E isso precisa ser
identificado e tratado desde o início”, afirma.
Para o especialista, a ausência de resposta nos primeiros sinais agrava o
cenário e dificulta qualquer tentativa posterior de controle. “Quando você
identifica o risco no começo, é muito mais fácil de combater. É como uma gripe:
você não espera virar pneumonia para procurar um hospital”, diz.
Iniciativas para prevenção
Ele cita que há iniciativas
internacionais voltadas justamente para esse tipo de prevenção, com foco na
formação de professores e na criação de ambientes escolares mais preparados
para lidar com conflitos.
“A UNESCO, em parceria com o
Brasil, com instituições de ensino e com a sociedade, pode desenvolver
programas de prevenção, materiais pedagógicos e treinamentos para professores,
focados na educação socioemocional, na cultura de paz e na identificação
precoce de sinais de risco”, afirma.
Apesar disso, segundo ele, ainda
há resistência por parte de gestores e instituições em tratar o tema como
prioridade, especialmente quando envolve investimento em equipes
especializadas.
“Muitas vezes, principalmente no
setor privado, isso ainda é visto como um gasto. Há uma resistência em investir
em profissionais de saúde emocional. Mas isso não é gasto, é investimento. É
investimento na saúde de adolescentes, crianças e jovens”, argumenta.
No campo das soluções, o especialista afirma que não há necessidade de medidas
complexas, mas de organização e continuidade nas ações.
“De forma bem concreta, o caminho
não é complexo, mas exige coordenação. É preciso organização. Começa pelo
básico, com capacitação de professores, rodas de conversa com alunos e pais,
porque sem esse diálogo muita coisa fica reprimida e acaba se agravando”,
afirma.
Ele também aponta falhas em
protocolos de segurança dentro das próprias unidades de ensino, como no
controle de acesso. “Também são necessários protocolos simples de identificação
de risco. Como é que uma criança entra em uma escola armada, mesmo que com arma
branca? Isso é inaceitável. É preciso ter protocolos de segurança na entrada,
principalmente em escolas sem controle adequado.”
Para Jefferson Lucas, o Brasil já
dispõe de experiências e modelos que poderiam ser aplicados com resultados
visíveis, mas ainda enfrenta dificuldades de articulação entre diferentes
setores.
Fonte: Diário de Pernambuco.