O perigo de não reconhecer a violência contra a mulher

Muitas mulheres sabem que a violência contra a mulher existe, mas têm dificuldade de identificá-la quando acontece dentro da própria vida.

Cerca de 25 milhões de brasileiras viveram situações de violência no último ano, sem reconhecê-las como tal. O número impressiona não apenas pela dimensão, mas principalmente pelo que revela. Muitas mulheres sabem que a violência contra a mulher existe, mas têm dificuldade de identificá-la quando acontece dentro da própria vida.

Os dados foram divulgados em agosto pelo DataSenado e pelo Observatório da Mulher contra a Violência. Uma em cada três brasileiras relatou ter vivido alguma situação de violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores à pesquisa. Apenas 4% se reconheceram espontaneamente como vítimas, enquanto outros 29% relataram situações concretas de violência sem identificá-las dessa forma.

O problema é que muitas formas de violência ainda são confundidas com comportamentos próprios de uma relação. O ciúme excessivo, controle, humilhações e proibições vão sendo tolerados e, quando a mulher não percebe que essas condutas também são violência, pode não enxergar a necessidade de procurar proteção.

Em Pernambuco, os números do feminicídio tornam esse alerta ainda mais grave. Segundo a Secretaria de Defesa Social, o estado registrou 88 feminicídios em 2025. Dessas mulheres, 68 não tinham registrado queixa anterior de violência doméstica. São 77% das vítimas, quase oito em cada dez.

No Rio Grande do Sul, o Mapa do Feminicídio 2025, da Polícia Civil, revelou uma proporção semelhante. Três em cada quatro vítimas não tinham registro policial anterior relacionado à violência doméstica.

Isso não significa que elas não percebessem a violência. Medo, ameaças, dependência emocional ou financeira e esperança de mudança também podem impedir uma mulher de procurar ajuda. Contudo, os números mostram que muitas chegaram ao desfecho mais grave sem registro policial anterior.

Combater o feminicídio começa muito antes do assassinato. Inicia quando uma mulher consegue reconhecer como violência aquilo que, por tanto tempo, aprendeu a suportar.

Fonte: Diário de Pernambuco

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