Como é possível que tantas
mulheres afirmem ter sofrido violência dentro de um relacionamento enquanto tão
poucos homens reconhecem ter praticado alguma agressão? A pergunta ganha ainda
mais força diante dos números: 54% das mulheres que já se relacionaram com
homens afirmam ter sofrido alguma forma de violência prevista na Lei Maria da
Penha, enquanto apenas 11% dos homens admitem ter cometido agressões contra
parceiras ou ex-parceiras, uma diferença de 43 pontos percentuais que merece
ser compreendida.
Parte dessa distância pode estar
na normalização de comportamentos transmitidos durante gerações, quando muitos
homens aprenderam que controlar, impor, intimidar ou decidir pela companheira
fazia parte da dinâmica de um relacionamento. Atitudes que durante muito tempo
receberam nomes como ciúme, autoridade, proteção ou simplesmente coisa de casal
podem, na realidade, configurar violência psicológica, moral, patrimonial,
sexual ou física.
Existe ainda uma dimensão
psicológica importante, porque reconhecer a violência quando ela é praticada
pelo outro é muito mais fácil do que identificá-la no próprio comportamento.
Admitir uma atitude violenta pode significar confrontar a imagem que alguém
construiu de si mesmo e, diante desse desconforto, surgem justificativas como
“foi apenas uma discussão”, “eu estava nervoso” ou “nunca bati nela”.
Essa diferença de percepção não
diminui a responsabilidade de quem agride, mas ajuda a compreender por que
determinados comportamentos continuam sendo repetidos sem que seus autores
sequer se reconheçam como agressores. E aí está um dos grandes desafios do
enfrentamento à violência contra a mulher, porque quem não consegue reconhecer
a violência no próprio comportamento, dificilmente compreenderá que precisa
mudá-lo.
Por isso, além de proteger as
vítimas e responsabilizar os agressores, precisamos ensinar também os homens a
reconhecer onde termina o conflito de um relacionamento e onde começa a
violência.
Mulheres são maioria do
eleitorado, mas ainda têm pouco espaço na política
Como explicar que as mulheres
sejam maioria entre os eleitores brasileiros e continuem tão distantes dos
principais espaços de poder? Os números tornam essa contradição evidente. Em
2026, o Brasil tem 83,9 milhões de eleitoras, que representam 52,84% do
eleitorado nacional. São mais de 9 milhões de mulheres a mais que homens aptos
a votar.
Entretanto, essa maioria
desaparece quando observamos quem efetivamente ocupa o poder. Atualmente, as
mulheres representam apenas 18% das cadeiras da Câmara dos Deputados. Em dois
séculos de história do Parlamento, somente 499 mulheres estiveram entre os
13.421 parlamentares que passaram pela Câmara.
A diferença começa antes mesmo da
eleição. Em 2022, aproximadamente 34% das candidaturas eram femininas, embora
as mulheres já fossem maioria entre os eleitores.
Não basta, portanto, dizer que
mulheres podem participar da política. É preciso observar quem recebe estrutura
partidária, recursos, visibilidade e condições reais para disputar o poder.
O Brasil avançou, mas os números
mostram que representação eleitoral e representação política ainda estão muito
distantes.
Mulheres negras enfrentam dupla
desigualdade no Brasil: de gênero e de raça
Para as mulheres negras
brasileiras, gênero e raça podem representar obstáculos simultâneos. E a
política oferece um retrato significativo dessa realidade.
Nas eleições de 2022,
aproximadamente 9.800 mulheres concorreram a diferentes cargos, mas apenas 302
foram eleitas. Entre elas, somente 39 eram mulheres pretas. Ao mesmo tempo, as
mulheres negras representavam aproximadamente 25% do eleitorado brasileiro,
revelando uma enorme distância entre presença nas urnas e presença nos espaços
de decisão.
A desigualdade aparece também
quando ampliamos o olhar. Em 2022, pessoas pretas e pardas chegaram a
representar cerca de 50% das candidaturas nas eleições gerais. O crescimento
demonstra maior participação, mas também revela que chegar à candidatura não
significa necessariamente chegar ao poder.
Por isso, representatividade
importa. Quando meninas negras encontram mulheres negras nas universidades,
empresas, tribunais, parlamentos, delegacias e demais posições de liderança,
enxergam possibilidades que durante gerações pareceram distantes.
Os números mostram que abrir a
porta não basta quando nem todos conseguem atravessá-la nas mesmas condições.
Igualdade verdadeira começa quando gênero e cor deixam de determinar o tamanho
dos obstáculos colocados diante de alguém.
Fonte: Diário de Pernambuco.


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