Uma pesquisa realizada pelo
Sindicato Municipal dos Profissionais de Ensino da Rede Oficial do Recife
(SIMPERE) aponta um cenário de adoecimento psicológico entre professores da
rede municipal do Recife. A ansiedade foi o diagnóstico mais citado entre eles,
mencionada por 61,9% dos participantes.
Além disso, das 478 respostas
consideradas válidas no levantamento, 78% dos participantes afirmaram que seus
diagnósticos estão diretamente relacionados ao ambiente de trabalho. Depois da
ansiedade, os professores citaram também estresse (49,2%), depressão (39,5%) e
burnout (25,9%). Os dados foram divulgados pelo sindicato nesta segunda-feira
(10).
O levantamento foi realizado por
meio de formulário on-line e reuniu respostas quantitativas e relatos sobre as
experiências dos profissionais. Segundo o documento, o objetivo foi identificar
os principais fatores relacionados ao sofrimento mental dos professores, o
perfil dos participantes e a percepção sobre a assistência oferecida durante o
processo de adoecimento.
Entre os fatores apontados pelos
participantes como desencadeadores dos problemas de saúde, esa falta de
estrutura adequada no ambiente de trabalho aparece em primeiro lugar,
mencionada por 32,6% dos respondentes.
Na sequência estão relatos de
abuso de poder e assédio (19,2%), salas lotadas (15,5%) e sobrecarga de
trabalho (15,3%). Também foram mencionadas imposições, metas e cobranças
excessivas relacionadas a projetos (8,2%).
Os resultados mostram ainda que a
percepção de relação entre saúde mental e trabalho é predominante entre os
participantes. Além dos 77,6% que responderam que existe relação direta, 16,9%
disseram não ter certeza e 3,8% afirmaram que não identificam essa ligação.
Entre os diagnósticos mencionados
na pesquisa, a ansiedade aparece em primeiro lugar, citada por 61,9% dos
participantes. O estresse foi mencionado por 49,2%, enquanto a depressão
apareceu em 39,5% das respostas. Burnout teve 25,9% das menções.
Para Bianca Cássia, diretora do
SIMPERE e integrante do coletivo Acolher, os fatores de ordem psicológica
aparecem como os principais motivos de adoecimento relatados pelos
profissionais “O que a pesquisa demonstra é que os maiores fatores de
adoecimento e afastamento da sala de aula entre professoras e professores são
ansiedade, depressão, pânico e, depois, burnout.”
A dirigente ressalta que a
pesquisa tem caráter exploratório e que não foi realizada uma avaliação clínica
para estabelecer uma relação de causa e efeito entre os diagnósticos. Segundo
ela, a pesquisa foi baseada em respostas espontâneas dos professores. “Como
essa foi uma pesquisa espontânea, ainda não foi feita nenhuma intervenção no
sentido de identificar, por exemplo, se determinada ansiedade ou depressão está
relacionada ao burnout.”
O documento também destaca que os
relatos abertos apontaram recorrências como exaustão, desmotivação, falta de
estrutura, cobranças excessivas, assédio moral, desvalorização profissional,
dificuldades relacionadas à inclusão de alunos com necessidades especiais,
violência e indisciplina no ambiente escolar.
Falta de assistência
A pesquisa também investigou a
percepção dos professores sobre a assistência recebida durante o período de
afastamento. Dos 478 participantes, 227 afirmaram que não receberam
assistência, enquanto apenas 12 relataram ter sido atendidos pelo programa
Bem-Estar. Outras 239 respostas foram agrupadas como “outros”, reunindo relatos
variados que também indicavam falta de apoio.
Segundo Bainca, professores que
adoecem são encaminhados ao Departamento de Atendimento ao Servidor (DAIS) e
orientados a procurar atendimento médico. A partir da avaliação médica, pode
ser solicitado o afastamento da sala de aula e a readaptação do profissional.
O impacto do adoecimento aparece
também nos relatos individuais coletados pelo sindicato. É o caso da professora
Greyce Falcão, que afirma ter desenvolvido problemas de saúde ao longo do
último ano e está afastada há 70 dias por questões de saúde mental.
Professora há quase 20 anos, ela
afirma que nunca havia precisado se afastar da sala de aula. Segundo Greyce,
entre as dificuldades encontradas na rotina estavam salas com muitos
estudantes, alunos não alfabetizados e falta de apoio para atender estudantes
com necessidades específicas.
Ela relata que tinha 26 alunos em
uma turma, dos quais 16 não eram alfabetizados. “Eu não consigo alfabetizar 16
alunos, dar aula para oito que são alfabetizados e ainda cuidar dos alunos
atípicos sozinha”, afirma.
Os sintomas também começaram a
aparecer durante o expediente. “Durante as aulas, eu percebia um aumento da
pressão, por causa da dor de cabeça, da dor na nuca. O coração disparava e eu
percebia que estava tendo uma crise de ansiedade. Comecei a passar mal durante
as aulas e também quando chegava em casa”, conta. Greyce diz que procurou
atendimento psicológico e psiquiátrico por iniciativa própria.
Pesquisa terá nova etapa
O SIMPERE pretende ampliar o
levantamento nas próximas semanas. Segundo Bianca Cássia, no dia 11 de agosto
representantes das unidades escolares participarão de uma atividade
preparatória. No dia 13, os chamados delegados de base deverão retornar às
escolas para dialogar com outros professores e aplicar uma nova pesquisa, de
caráter qualitativo e com abrangência maior na rede.
Os resultados deverão ser
discutidos em um seminário marcado para 20 de agosto. A atividade terá
participação de representantes da Confederação Nacional dos Trabalhadores em
Educação (CNTE), da área de saúde do trabalhador, além de integrantes da
academia.
“É nesse momento que vamos
discutir quais serão as nossas reivindicações para garantir práticas
preventivas para os professores e, quando o professor adoecer, quais medidas
vamos reivindicar para garantir o atendimento e o acompanhamento adequado”,
afirma Bianca.
O Diário de Pernambuco entrou
em contato com a Secretaria de Educação, mas não obteve retorno.
Fonte: Diário de Pernambuco.


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