Pescadores ajudam a validar estudo sobre marcas deixadas pelo petróleo no Nordeste


 

Sete anos depois de o petróleo começar a aparecer em praias do Nordeste, pescadores artesanais de quatro estados voltaram a se reunir para falar sobre os efeitos que permaneceram depois que as manchas deixaram de ocupar as imagens do desastre. O encontro ocorreu nesta quarta-feira (19), no Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (CEPENE), em Tamandaré, no Litoral Sul de Pernambuco, e marcou o encerramento das atividades presenciais de uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Durante três dias, pescadores e pesquisadores participaram de rodas de conversa, apresentações e plenárias para discutir os resultados levantados ao longo de dois anos e meio de trabalho. A etapa realizada nesta quarta foi dedicada à apresentação dos impactos do derramamento na saúde dos trabalhadores da pesca e à discussão dos resultados consolidados pelos próprios participantes.

O projeto “Petróleo e os Povos da Pesca Artesanal: Enfrentando o Racismo e a Injustiça Ambiental” ainda não está formalmente concluído. Os dados e materiais produzidos nas comunidades passam pela etapa final de sistematização e devem resultar em relatórios, cartilhas, mapas, artigos científicos e trabalhos acadêmicos.

O seminário foi concebido como uma etapa de validação do trabalho desenvolvido. A proposta da chamada pesquisa-ação é que as comunidades que participaram do levantamento também tenham espaço para discutir aquilo que foi identificado pelos pesquisadores.

“Essa pesquisa é importante porque incorpora várias dimensões interdisciplinares sobre o estudo dessa população. E ela não é só uma pesquisa. A gente chama de pesquisa-ação. E tem uma dimensão que é importante, que é o encontro entre o saber científico e o saber dessas comunidades das águas de quatro estados. É uma coprodução. Não fica só aí, precisa ser mais do que isso”, afirmou o secretário nacional de Pesca Artesanal, Cristiano Ramalho.

A pesquisa começou em janeiro de 2024 e foi realizada em Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. O recorte levou em consideração comunidades pesqueiras atingidas pelo derramamento de petróleo de 2019 e a relação delas com seus territórios, com a atividade pesqueira e com os serviços públicos.

A equipe da UFPE envolveu pesquisadores do Centro de Estudos Avançados (CEA) e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema), além de pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), estudantes de graduação e pós-graduação, organizações comunitárias e o Conselho Pastoral dos Pescadores.

A geógrafa Vanice Selva, pesquisadora da UFPE envolvida no trabalho, explica que a metodologia procurou evitar que os pescadores fossem apenas fontes de informação.

“Uma preocupação inicial surgiu quando essa iniciativa foi apresentada, porque se trata de um projeto que chamamos de pesquisa-ação. Foi dessa forma que a Secretaria da Pesca Artesanal solicitou. Não simplesmente uma pesquisa, mas uma pesquisa associada à ação, com envolvimento e participação das pessoas que estão sendo pesquisadas”, explicou.

“À medida que realizamos a pesquisa e os levantamentos, também devolvemos os resultados e discutimos os assuntos com as próprias comunidades. E o que encontramos foi muito semelhante em praticamente todos os municípios."

O que ficou depois das manchas

O derramamento começou a ser registrado em agosto de 2019 e alcançou uma extensa faixa do litoral brasileiro. Segundo o Ibama, aproximadamente 5 mil toneladas de resíduos oleosos foram coletadas durante a emergência. O material incluía óleo, areia, equipamentos de proteção e outros resíduos contaminados.

Na época, os pescadores estiveram entre os trabalhadores que participaram da retirada do material das praias e manguezais. Em Pernambuco, relatos registrados ainda durante a emergência já apontavam para a queda nas vendas de peixes, mariscos e caranguejos e para a dificuldade de manutenção da renda familiar.

A dimensão desses efeitos passou a ser mais conhecida com estudos realizados nos anos seguintes. A redução da comercialização do pescado, o contato com resíduos e as incertezas sobre os efeitos à saúde se somaram a dificuldades que já existiam nos territórios.

Segundo Vanice Selva, as comunidades visitadas apresentaram dificuldades semelhantes, principalmente nas áreas de saúde, renda, reconhecimento profissional e acesso a políticas públicas. “São relatados problemas de pele, doenças ginecológicas, entre outras questões de saúde. As doenças e os impactos sobre a saúde foram, portanto, aspectos comuns encontrados em praticamente todas as comunidades pesquisadas”, disse.

“Quando uma pessoa dessa comunidade procura uma unidade de saúde, muitas vezes os profissionais não conseguem identificar ou reconhecer as doenças associadas diretamente à atividade pesqueira. Também observamos muitas dificuldades relacionadas à aposentadoria, principalmente em razão da invisibilidade e das dificuldades de reconhecimento da atividade”, afirmou.

Pesquisa conjunta

Durante o desenvolvimento do projeto, as equipes passaram por comunidades de quatro estados para levantar informações sobre saúde, trabalho, renda, território, organização comunitária e alternativas econômicas.

A coordenadora-geral do Centro de Estudos Avançados da UFPE, Maria de Jesus de Britto Leite, destaca que uma das preocupações da equipe é fazer com que o material produzido não fique restrito à universidade.

“Com o documento que a gente está agora terminando de construir, a gente querele fique na mão de cada uma das comunidades, com todas as informações que foram coletadas nos quatro estados. A gente construiu cartilhas para cada uma das comunidades, onde diz qual foi o problema dela com a questão do petróleo, como elas são, onde elas se localizam”, afirmou.

A ideia é transformar parte do levantamento em instrumentos que possam ser utilizados pelas próprias comunidades. Entre os produtos previstos estão cartilhas, mapas e materiais de formação. “A gente fez esse esforço muito grande de trazer conhecimento dos oceanos para que isso se complemente com o conhecimento, com o saber tradicional das pessoas da pesca artesanal. Elas têm essa capacidade de monitorar o mar, a maré, o nível do mar, de saber o que está sujo.”

O ativista Edson Fly, do Núcleo de Comunicação Caranguejo Uçá, participou do projeto a partir da articulação com comunidades tradicionais e registros jornalísticos. Para ele, a discussão sobre o petróleo também mostra conflitos territoriais que já existiam antes de 2019.

“O que observamos é que o derramamento de petróleo ampliou as possibilidades de perda de territórios. Para especuladores e, por que não dizer, também para investidores das áreas costeiras, esse crime abriu as porteiras para que o processo de colonização, ocupação e relocação dos territórios pesqueiros fosse acelerado."

Conversão em política pública

Uma das expectativas apresentadas durante o seminário é que o levantamento ajude a orientar ações públicas voltadas às comunidades pesqueiras. O Ministério da Pesca e Aquicultura informou que o projeto faz parte do Programa Povos da Pesca Artesanal e foi criado como uma das medidas de enfrentamento aos impactos do derramamento de 2019. Em 2025, o programa divulgou ter capacitado 370 representantes de comunidades pesqueiras artesanais.

“Para o ministério, é importante porque é escutado, mas é mais do que escutado. Isso é traduzido em contribuições efetivas. Foram três dias de evento. Hoje eles vão trazer sugestões para as iniciativas de políticas públicas”, disse o secretário. Cristiano Ramalho.

Ele cita, entre os desdobramentos, ações relacionadas à saúde e ao reconhecimento de territórios tradicionais da pesca. A intenção é ampliar a atenção às doenças relacionadas ao trabalho e aproximar os serviços de saúde das comunidades.

“A partir de agora, o objetivo é aperfeiçoar o atendimento em saúde. E essa política de atenção primária, em vez de o pescador ir até o local, ela vai até a comunidade. Entende-se as especificidades das doenças laborais da pesca. É uma política que começou este ano, e a ideia é aprofundá-la.”

A pesquisa também tenta olhar para o que pode acontecer caso outro desastre ambiental atinja o litoral. Para os pesquisadores e participantes, a experiência de 2019 mostrou que as comunidades precisam participar da elaboração dos protocolos de resposta e das políticas destinadas aos territórios.

O desafio, agora, é transformar os dados reunidos ao longo de dois anos e meio em materiais que permaneçam nos territórios e em propostas capazes de chegar às políticas públicas. A expectativa é que os dados possam servir tanto às comunidades participantes quanto a novas pesquisas e à formulação de políticas públicas voltadas à pesca artesanal.

Fonte: Diário de Pernambuco.

Nenhum comentário:

Videos reportagem