O acidente que deixou o turista
Filipe de Freitas, de 41 anos, com perda de movimentos após ser atingido por
uma onda na Praia de Maracaípe, em Ipojuca, no Litoral Sul de Pernambuco, chama
atenção para um risco que pode ser subestimado por quem entra no mar.
Filipe sofreu um traumatismo
raquimedular na região cervical depois de ser lançado pela força da água e
precisou passar por uma cirurgia. Para o cirurgião digestivo e surfista,
Matheus S. Perazzo Valadares, formado pelo curso ATLS (Advanced Trauma Life
Support), do Colégio Americano de Cirurgiões, o impacto de uma onda pode
provocar lesões graves principalmente quando o corpo é projetado contra o fundo
do mar.
Segundo o especialista, o risco
aumenta porque a força da onda pode tirar os pés do contato com o solo e
provocar um movimento de rotação. Nesse processo, a cabeça e a coluna cervical
ficam entre as regiões mais vulneráveis.
“Normalmente, os pés perdem
contato com o fundo do mar, a pessoa é projetada para frente e, pelo movimento
da onda de quebra, normalmente ela vai primeiro com a cabeça”, explicou.
Impacto pode atingir cabeça e
coluna
Quando a cabeça atinge o fundo do
mar, seja areia, pedra ou recife, o corpo pode continuar em movimento. Segundo
Matheus, a cabeça pode sofrer uma flexão ou uma extensão excessiva do pescoço,
provocando lesões na coluna cervical.
“Quando a cabeça bate, ela fica
lá no fundo de areia e o corpo gira por cima. Aí tem uma hiperextensão, pode
ter uma lesão importante na coluna, uma torção na cervical e lesões
raquimedulares”, afirmou.
O especialista explica que uma
queda que pode parecer simples tem potencial para provocar consequências graves
porque cabeça e coluna concentram estruturas responsáveis pelo controle dos
movimentos e de outras funções do organismo.
Além da coluna, ombros e braços
também podem ser atingidos durante a queda ou pelo impacto contra o fundo.
No caso de Filipe, a lesão
ocorreu na região cervical. A irmã dele, Paula Torres, contou que estava
filmando familiares no mar quando percebeu que o turista não
retornava à superfície. O filho adolescente dela conseguiu puxá-lo pelas
axilas.
“Quando ele puxou, meu irmão não
respondia. Foi aí que eu percebi que realmente tinha acontecido alguma coisa e
comecei a gritar desesperada. O Samu chegou, fez a imobilização e
levou meu irmão para o Hospital da Restauração, no Recife”, relatou em uma
entrevista anterior ao Diario de Pernambuco.
No Hospital da Restauração,
exames identificaram um traumatismo raquimedular cervical, com comprometimento
dos movimentos dos braços e das pernas. Filipe passou por uma cirurgia de
artrodese cervical nas vértebras C4 e C5, na sexta-feira (14), e recebeu alta
nesta segunda-feira (17).
Lesão pode evoluir depois do
acidente
De acordo com o cirurgião Perazzo
Valadares, uma pessoa que sofre uma pancada forte não necessariamente apresenta
imediatamente todos os sinais de uma lesão grave. Alterações na coluna podem
provocar sintomas inicialmente mais leves e evoluir posteriormente.
“Logo no começo, pode até ser que
não tenha tantos sintomas. A pessoa pode começar, por exemplo, com alteração da
sensibilidade, uma confusão mental, tontura, perda de força, formigamento, uma
dor na coluna”, explicou.
Entre os sinais que exigem
atendimento médico estão perda de consciência, confusão mental, alteração de
comportamento, vômitos, sonolência incomum, convulsões, dor de cabeça intensa,
formigamento, perda de força e alteração da marcha.
No caso de Filipe, a recuperação
ainda não pode ser definida. Segundo Paula, ele consegue movimentar o braço
esquerdo, mas apresenta limitações nos movimentos finos. O lado direito foi
mais afetado e as pernas permanecem sem movimento.
A família iniciou uma rotina de
fisioterapia intensiva. A orientação inicial é de pelo menos 45 dias de
tratamento, além do uso de colar cervical durante seis semanas. Uma nova
avaliação médica deverá definir os próximos passos.
O que fazer diante de uma
suspeita de lesão
Se houver suspeita de trauma na
coluna, a orientação é evitar movimentar a vítima sem necessidade. O cirurgião
explica que os protocolos de atendimento ao trauma recomendam reduzir os
movimentos da coluna e, quando for necessário movimentar a pessoa, mas fazer
isso mantendo cabeça, pescoço e corpo alinhados.
“Deve-se diminuir a movimentação
da pessoa. Se tiver que movimentar, tem que movimentar em bloco, não mexendo o
corpo e deixando o pescoço e a cabeça livres, soltos. Tem que virar tudo de uma
vez”, orientou.
Também não se deve tentar
“colocar a coluna no lugar” ou puxar a cabeça e o pescoço da vítima. A
prioridade é manter a pessoa estável até a chegada do atendimento
especializado.
O especialista também chama
atenção para um comportamento comum após acidentes: levantar imediatamente a
vítima porque ela ainda consegue se mexer.
“Quando as pessoas têm algum
trauma, a primeira coisa que o pessoal quer é levantar logo aquela a vítima,
porque acha que, se ela está se mexendo, está tudo bem. Mas não”, afirmou.
O que fazer quando uma onda forte
se aproxima
Diante de uma onda forte, a
orientação do cirurgião é não tentar enfrentá-la de pé. Segundo ele, uma
alternativa é mergulhar para reduzir o impacto da água e proteger cabeça e
corpo.
“Não fique de pé para enfrentar a
onda, lutar com a onda. Tente mergulhar, o mais fundo possível, para evitar o
impulso da água”, explicou.
Durante o movimento, a
recomendação é proteger a cabeça, aproximar as pernas do abdômen e utilizar os
braços para proteger a região da cabeça.
Matheus também orienta que o
banhista conheça as condições do local antes de entrar no mar. Além da força
das ondas, é preciso observar correntes, canais de retorno, bancos de areia,
pedras e recifes.
Em praias com corrente de
retorno, a recomendação é não tentar nadar contra a corrente. O banhista deve
procurar sair lateralmente da área de maior força da corrente e pedir ajuda
quando necessário.
Maracaípe tem áreas de surfe e
sinalização
Segundo a Prefeitura de Ipojuca,
a Praia de Maracaípe conta com atuação das equipes do Salva-Mar, responsáveis
por ações preventivas, orientação dos banhistas e sinalização das áreas
consideradas de maior risco.
As bandeiras utilizadas pelas
equipes podem mudar durante o dia conforme as condições do mar e a variação da
maré. A bandeira vermelha indica áreas identificadas com corrente de retorno,
onde o banho não é recomendado.
A prefeitura informou que, no
momento do acidente envolvendo Filipe, o trecho onde ele estava não estava
sinalizado como zona de corrente de retorno. Conforme as informações
preliminares levantadas pela equipe, ele realizava uma atividade conhecida como
“pegar jacaré”, utilizando a força das ondas sem prancha, quando ocorreu o
acidente nas proximidades de um banco de areia, em uma área rasa.
A gestão municipal ressalta que
essas informações descrevem as circunstâncias observadas e relatadas até o
momento e não representam uma conclusão técnica sobre a causa do acidente.
Além das bandeiras, há placas de
sinalização que podem ser instaladas pelo município ou pelo Governo de
Pernambuco, de acordo com as competências de cada órgão.
Entre janeiro e junho de 2026, o
Salva-Mar de Ipojuca contabilizou 457.401 ações preventivas. O número inclui
abordagens para orientação e intervenções realizadas pelos guarda-vidas diante
de situações consideradas de risco.
No mesmo período, foram
registrados 120 salvamentos e resgates, 161 prestações de socorro e 159 atendimentos
de Atendimento Pré-Hospitalar (APH). Também foram contabilizados 16 eventos.
Segundo as estatísticas do
Salva-Mar referentes ao primeiro semestre, não houve registro de morte por
afogamento no período.
A Prefeitura orienta moradores e
turistas a observarem as bandeiras, seguirem as recomendações dos guarda-vidas
e procurarem as equipes do Salva-Mar antes de entrar no mar quando houver
dúvida sobre as condições para banho.
Corpo de Bombeiros reforça
orientação
O Corpo de Bombeiros Militar de
Pernambuco (CBMPE) atua de forma integrada com os municípios nas ações de
prevenção, orientação e salvamento aquático.
Em Ipojuca, há postos de
guarda-vidas mantidos pela prefeitura ao longo do litoral. Na área de
Maracaípe, existe um posto em funcionamento, com profissionais voltados à
prevenção e orientação dos banhistas. O local também conta com sinalização
móvel instalada pelos próprios guarda-vidas conforme as condições observadas na
praia.
O CBMPE atua na resposta às
emergências e pode ser acionado pelo número 193. A corporação reforça a
importância de respeitar a sinalização, seguir as orientações dos guarda-vidas
e evitar áreas de risco, principalmente locais com forte incidência de ondas e
prática de surfe.
Para o médico, que pratica
esportes no mar, a principal medida para evitar acidentes é não subestimar o
mar. O surfista afirma que mesmo quem tem experiência precisa reconhecer os
próprios limites e respeitar as condições da água.
“O erro mais comum é subestimar o
mar, a força das ondas. O mar tem uma série de ondas. Vem uma série maior, uma
série com mais intensidade, com mais força. A principal recomendação para
evitar acidente é respeitar o mar e reconhecer os seus limites.”
Ele também recomenda que pessoas
sem experiência não entrem em áreas frequentadas principalmente por surfistas.
“A principal recomendação é não
entrar. É muito arriscado”, afirmou.
Para o especialista, conhecer o
mar, observar a sinalização e reconhecer os próprios limites são medidas que
podem evitar que um momento de lazer termine em um acidente grave.
Fonte: Diário de Pernambuco.


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