Estudo mostra estrago que bets causam às famílias a partir da visão das mulheres que são mais impactadas e também estão se viciando


 

Ficou pronto um dos mais completos e complexos estudos já feitos no Brasil sobre o impacto das bets, desta vez focando especificamente nas mulheres que vêm sendo impactadas não apenas pelo que os seus maridos e companheiros jogam, mas pelo que elas também jogam, o que potencializa a perda de renda familiar e danos emocionais na estrutura dessas donas de casa.

O estudo Mulheres e Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias, conduzido pelo estúdio Clarice, Estratégia Latina e Instituto Idéia, é diferente (e mais assustador) de tudo o que foi publicado sobre o desvio de recursos das bets na renda das famílias porque analisa não apenas quantitativamente, mas qualitativamente o efeito da chamada ludopatia.

Destruindo as famílias

E os números são assustadores. 67% das mulheres alertam que apostas online estão destruindo as famílias (número que é de 59% na percepção dos homens). E porque denuncia que as apostas online entraram no cotidiano, nas relações, nos afetos e na saúde mental das famílias brasileiras. Porque a crise das bets não é só financeira. É uma crise das famílias.

O estudo avaliou o impacto do jogo sob duas óticas: as que apostam e as impactadas por um familiar apostador. As entrevistas qualitativas, realizadas em junho e agosto, ouviram 60 pessoas, sobretudo mulheres de 18 a 58 anos, das classes C, D e E, no Sudeste e Nordeste. Na enquete quantitativa, foram ouvidas 2.008 mulheres e homens em todo o Brasil, entre 8 e 9 de julho último, de acordo com a distribuição da população conforme o Censo 2022, PNAD 2025.

Violência nas famílias

Nas entrevistas, as mulheres impactadas são as que mais percebem a violência. Falam de comportamentos agressivos, xingamentos e perda de controle quando os companheiros perdem. E relatam também filhos endividados com agiotas e a sensação de insegurança que passa a acompanhar a família. É um dado perturbador: 7% das mulheres apostadoras declaram ter pegado dinheiro emprestado com agiotas.

O Instituto Clarisse é liderado por Beatriz Della Costa e Mariana Ribeiro, cientistas sociais com mais de 20 anos de pesquisas em vários institutos internacionais, que conseguiram identificar o comportamento das mulheres vítimas das bets.

Perda de confiança

“As apostas abalam profundamente a confiança dentro da família. A quebra é descrita como irreparável: as impactadas não se sentem mais capazes de acreditar quando o familiar diz que parou de jogar, quando pede cinco reais ou manda um PIX”, diz o relatório.

Mas os efeitos dentro das famílias são mais graves com a quebra de confiança entre mulheres e parceiros; 15% dos brasileiros acreditam que alguém que mora com eles faz apostas online e não conta a ninguém. Na análise dos dados, 21% relataram desgaste emocional e 24% afirmaram que as apostas potencializaram os conflitos familiares.

Amparo e proteção

O estudo afirma que os vínculos pessoais, antes mecanismos de amparo e proteção, são captados pelo sistema das apostas online. Primeiro, levam o jogo para dentro de casa. Depois, com o jogo já instalado no lar, esses mesmos vínculos viram o campo da batalha.

A constatação de que o vício dos homens causa prejuízo já foi estudada, mas a novidade é que a pesquisa foi feita apenas com mais de 2008 mulheres de todas as regiões do Brasil. Sentimentos como sofrimento, culpa e vergonha apareceram entre as entrevistas.

Bets que adoecem

O impacto das apostas não é vivido apenas nas relações; as bets também adoecem o indivíduo. Na pesquisa, 56% das pessoas que quiseram pedir ajuda para parar de apostar, mas não pediram, apontam a vergonha como motivo.

Elas também relataram mais doenças depois que passaram a jogar nas bets. Esses sentimentos já eram conhecidos tanto em mulheres quanto em homens, e no caso da pesquisa do Instituto Clarisse ficou detectado que 20% delas passaram a se queixar de ansiedade,11% de depressão, 9% de “crises de pânico, insônia ou coração disparado”, 115 de perda de controle e 12% admitem ter dependência das apostas.

Forte dano social.

A pesquisa evidencia que as mulheres são mais críticas quanto ao dano social. 63% concordam que as casas de apostas devem ser proibidas, 72% concordam que as pessoas tendem a perder qualidade de vida por causa das apostas, 67% concordam que contribuem para o endividamento das famílias e 73% concordam que as casas de apostas estão “viciando os brasileiros”.

O estudo conclui que a crise das bets é resultado de um sistema que operou e opera com muito pouco freio: legalização inicial sem salvaguardas, omissão regulatória nos primeiros anos, plataformas que retêm o usuário, publicidade irrestrita, influenciadores remunerados, comissões pagas sobre a perda de quem é recrutado.

Fonte: Jornal do Commercio.

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