O ataque cometido por um
adolescente de 14 anos contra três alunas da Escola de Referência em
Ensino Fundamental (Eref) Cristiano Barbosa e Silva, em Barreiros, na Zona
da Mata Sul de Pernambuco, evidencia como episódios prolongados de bullying
podem afetar profundamente a saúde mental de crianças e adolescentes. A
avaliação é da psicóloga e psicanalista Luciana Inocêncio, especialista em
atender emergência e situações de crise, que analisou o caso e explicou os
efeitos psicológicos tanto para quem sofre quanto para quem pratica esse tipo
de violência.
Na manhã desta segunda-feira
(16), antes mesmo do início das aulas, o jovem atacou três colegas com uma arma
branca dentro da unidade de ensino. Ao Conselho Tutelar, ele relatou que era
vítima de bullying, informação que também foi confirmada ao Diario de Pernambuco
pelo advogado do adolescente.
Uma das vítimas, uma menina de 14
anos, foi transferida para o Hospital da Restauração (HR), no Recife.
Ela sofreu quatro perfurações, uma no abdômen e três nas costas. Uma das
facadas atingiu a região das vértebras, por onde passa a medula espinhal, e a
adolescente apresentou sintomas nas pernas. As outras duas alunas receberam
atendimento e estão bem.
Para Luciana Inocêncio,
o bullying provoca um desgaste emocional progressivo nas vítimas e
pode gerar consequências graves quando não é identificado ou tratado.
“O bullying vai, aos poucos,
minando a autoestima, a autoconfiança e o amor próprio da criança ou do
adolescente. Muitas vezes a vítima não consegue falar sobre o que está vivendo.
Ela vai guardando aquele sofrimento e acumulando as agressões. E essas
agressões vão levando a revolta, comportamentos agressivos e de vingança”,
explica.
Segundo a especialista, uma das
características mais comuns entre vítimas é justamente o silêncio sobre o
problema, o que dificulta a intervenção de adultos. “Quem sofre bullying muitas
vezes tem dificuldade de falar sobre a situação. As agressões geralmente
atingem um ponto muito sensível da pessoa, algo que já é uma fragilidade para
ela. Então, como falar sobre algo que já provoca dor ou vergonha? Por isso,
muitas acabam sofrendo caladas”, afirma.
De acordo com a psicóloga, a
escola é o principal ambiente onde ocorrem episódios de bullying, porque é o
espaço de maior convivência social durante a infância e adolescência. “A escola
é o lugar onde os jovens passam grande parte do tempo e onde vivem muitas das
suas relações sociais. Hoje esse bullying se tornou ao longo do tempo muito
mais agressivo, muito mais violento, muito mais cruel”, afirma.
Ela ressalta que, atualmente, as
agressões podem se intensificar com o uso das redes sociais, ampliando o
alcance das humilhações. “Hoje temos casos em que o adolescente sofre bullying
na escola e também no ambiente virtual, praticado pelas mesmas pessoas. Isso
aumenta muito o sofrimento psicológico.”
Para Luciana Inocêncio, episódios
de violência como o registrado em Barreiros podem surgir quando o jovem chega a
um limite emocional após um período prolongado de pressão. “Quem
sofre bullying frequentemente se sente acuado. E quando um ser humano se sente
acuado por muito tempo, pode reagir de forma explosiva.”
Segundo ela, isso significa
compreender os processos psicológicos envolvidos. “Estamos falando de um
sofrimento que vai sendo acumulado. Em alguns momentos, o adolescente pode
acreditar que não existe outra saída para aquela situação.”
A psicóloga ressalta que o
fenômeno do bullying envolve dois lados que precisam de atenção. “Temos dois
lados adoecidos. Existe o sofrimento de quem é vítima do bullying, que é muito
intenso, mas também precisamos olhar para quem pratica essas agressões. Muitas
vezes são jovens com dificuldades emocionais, baixa tolerância às diferenças e
comportamentos agressivos que também precisam de acompanhamento”, afirma.
Segundo ela, adolescentes que
praticam bullying frequentemente apresentam dificuldades em lidar com
diversidade e limites. “Quem pratica bullying muitas vezes demonstra baixa
tolerância ao diferente, dificuldade de lidar com a diversidade e uma
agressividade que pode estar associada a problemas emocionais ou
comportamentais.”
Luciana Inocêncio explica que o
bullying pode se manifestar de diferentes formas, seja fisicamente, verbalmente
ou virtualmente.
Fonte: Diário de Pernambuco.


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