Um levantamento do Ministério
dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) revela que os estados
brasileiros e o Distrito Federal ainda não avançaram de forma significativa em
medidas de prevenção, apoio ou reparação para crianças e adolescentes vítimas
de violência sexual online.
A gravidade do cenário também é
evidenciada pela pesquisa TIC Kids Online Brasil, que aponta que 23% dos
entrevistados sofreram algum tipo de violência sexual virtual entre
2021 e 2023. Do total, 62,6% tinham entre 15 e 17 anos.
Em Pernambuco, entre janeiro e
agosto deste ano, os casos desse tipo de crime saltaram de 11 para 20 em
relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da Secretaria de Defesa
Social (SDS-PE).
A psicopedagoga Kátia Guerra
explica que os abusadores exploram fragilidades emocionais das vítimas, muitas
vezes desassistidas pelos pais ou sem supervisão adequada.
“Quando a criança está
desregulada emocionalmente e não encontra suporte nos vínculos próximos, tende
a buscar essa regulação fora de si. O abusador, percebendo essa fragilidade,
oferece acolhimento rápido, presentes digitais, elogios e promessas de
pertencimento. Também observo com frequência que a solidão e o desamparo são
fatores decisivos nessa vulnerabilidade”, destaca a especialista.
Segundo ela, o ambiente digital
funciona como terreno fértil para esse tipo de exploração. “Essa lógica da
‘dopamina barata’ é facilmente explorada por abusadores, que se infiltram em
jogos, chats e redes sociais oferecendo essa sensação de prazer momentâneo”,
complementa.
Outro recurso comum dos
criminosos é afastar as vítimas do convívio familiar. “Na clínica, percebo que
os abusadores minam essas conexões: afastam a criança da família e dos amigos,
criando uma relação de dependência exclusiva no contato virtual. Esse
isolamento fragiliza ainda mais a criança e amplia o poder de manipulação do
agressor”, observa.
Esse processo, conhecido como
grooming, envolve uma aproximação estratégica para conquistar a confiança da
vítima, explorando suas fragilidades afetivas.
Efeitos silenciosos
Os impactos, no entanto, vão
muito além do ambiente online. Muitas vítimas sofrem de forma silenciosa, sem
conseguir relatar os abusos.
“Outro ponto marcante é o impacto
na autoestima e na autoimagem. Na clínica, vejo isso refletido em adolescentes
que carregam sentimentos de inadequação, que se comparam constantemente com os
outros, que se tornam dependentes da aprovação externa e que, muitas vezes,
desenvolvem quadros de ansiedade, depressão e comportamentos autodestrutivos”,
relata Kátia Guerra.
Ela acrescenta que os danos
emocionais podem se prolongar por anos. “Encontro jovens com narrativas
fragmentadas de si mesmos, com dificuldade de construir uma história pessoal
coesa. Isso gera modos esquemáticos disfuncionais, que se manifestam em padrões
de repetição de dor, dificuldade em confiar e bloqueios no processo de
amadurecimento emocional, podendo levar para padrões autodestrutivos e
prejuízos importantes em seu desenvolvimento saudável”, pontua.
Segundo a especialista, os
efeitos também se refletem na saúde física. “No hospital, vejo com frequência
crianças e adolescentes que chegam com dores abdominais, cefaleias, alterações
de sono e sintomas de ansiedade sem uma causa médica clara”, afirma.
A psicopedagoga reforça que o
enfrentamento a esse tipo de violência exige atuação concreta do poder público.
“Quando penso em prevenção e
proteção, vejo o quanto precisamos de protocolos claros para identificar sinais
precoces de sofrimento digital nos atendimentos hospitalares e clínicos. O
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) assegura a proteção integral, mas
esse direito precisa ser realidade concreta. Para isso, é fundamental
fortalecer políticas públicas que capacitem profissionais da saúde, da educação
e também as forças de segurança. Uma polícia preparada para lidar com crimes
virtuais contra crianças e adolescentes é indispensável, já que muitas famílias
não sabem a quem recorrer”, destaca.
Fonte: Diário de Pernambuco.


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