“O silêncio protege o agressor,
nunca protege você.” Vinte anos depois de emprestar seu nome à principal
legislação brasileira de combate à violência doméstica, Maria da Penha Maia
Fernandes afirma que o país conquistou avanços, mas ainda convive com falhas na
proteção às vítimas. Em entrevista ao Diario de Pernambuco, no
aniversário da Lei Maria da Penha, celebrado nesta sexta-feira (7), ela faz um
balanço das duas décadas da norma e defende investimentos na rede de
atendimento e acompanhamento dos agressores para romper o ciclo da violência.
Criada a partir da história de
violência sofrida por Maria da Penha e sancionada em 7 de agosto de 2006, a Lei
nº 11.340 transformou o enfrentamento à violência doméstica no Brasil. A
legislação criou mecanismos de proteção às mulheres, como as medidas protetivas
de urgência, fortaleceu a atuação das Delegacias da Mulher, instituiu os
Juizados de Violência Doméstica e firmou uma rede de atendimento voltada à
prevenção e ao combate desse tipo de crime.
A lei nasceu após anos de
mobilização e depois que o Estado brasileiro foi responsabilizado
internacionalmente pela demora em punir o agressor de Maria da Penha. Para ela,
a principal transformação promovida pela legislação foi mudar a forma como o
país enxerga a violência doméstica.
“Em 20 anos, a Lei Maria da Penha
mudou algo essencial: tirou a violência doméstica da esfera do ‘problema
privado’ e a colocou como uma questão de Estado, de segurança pública e de
direitos humanos. Hoje existem medidas protetivas, delegacias especializadas,
Juizados de Violência Doméstica, instrumentos que simplesmente não existiam
antes de 2006. Isso salvou vidas.”
Apesar disso, ela ressalta que a
existência da lei não garante, por si só, a proteção das mulheres. “Mas a lei
no papel e a lei na prática ainda são coisas diferentes. Segundo o Anuário
Brasileiro de Segurança Pública, ainda temos um número altíssimo de
feminicídios e uma parcela enorme de medidas protetivas descumpridas sem
consequência efetiva.”
Ela afirma que “faltam recursos,
faltam equipes capacitadas em muitos municípios do interior, falta uma rede de
apoio psicossocial e econômico para a mulher que denuncia, porque denunciar sem
ter para onde ir é deixar a mulher ainda mais vulnerável. E falta, sobretudo,
trabalhar com os agressores. Não adianta só punir e devolver esse homem à
sociedade, sem qualquer tipo de responsabilização e acompanhamento.”
Mudança cultural ainda incompleta
Ao avaliar as duas décadas da
legislação, Maria da Penha afirma que houve uma transformação importante na
percepção da sociedade sobre a violência contra a mulher, mas considera que
barreiras culturais continuam dificultando a proteção das vítimas.
“Vejo uma mudança real na
consciência coletiva. A expressão ‘Lei Maria da Penha’ hoje é conhecida por
praticamente todo brasileiro, isso por si só é uma vitória simbólica enorme. As
instituições também avançaram: hoje se fala em protocolo, em rede de
atendimento, em capacitação de policiais e magistrados.”
Na avaliação dela, entretanto,
antigas formas de naturalização da violência continuam presentes devido à
resistência cultural.
“A ideia de que ‘briga de marido
e mulher não se mete a colher’ ainda está presente, mesmo que de forma mais
velada. E as instituições, embora tenham avançado no papel, muitas vezes ainda
falham na prática, na demora de um atendimento, na falta de sensibilidade de um
agente público, na dependência econômica que faz a mulher voltar para dentro do
ciclo de violência mesmo depois de denunciar”, complementa.
Somente em 2025, Pernambuco
contabilizou 88 feminicídios, um aumento de 14% em relação aos 77 registrados
no ano anterior. Foi o maior número desde que o crime passou a integrar
oficialmente as estatísticas estaduais, em 2017.
O levantamento do Fórum
Brasileiro de Segurança Pública mostra que Pernambuco foi o segundo estado do
Nordeste com maior número de feminicídios em 2025, atrás apenas da Bahia. As 88
mortes representam, na prática, uma mulher assassinada por motivação de gênero
a cada quatro dias. No Brasil, foram registrados 1.568 feminicídios no mesmo
período, também um recorde.
Medidas existem, mas proteção
ainda falha
Para a diretora do Instituto
Maria da Penha, Anabel Pessôa, um dos principais desafios atualmente está na
capacidade do Estado de garantir que ela seja cumprida.
Segundo ela, dados do Anuário
Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em Pernambuco, 11 das 88 mulheres
vítimas de feminicídio em 2025 possuíam medida protetiva ativa quando foram
mortas, evidenciando falhas na fiscalização dessas decisões judiciais.
Anabel aponta três problemas
estruturais, sendo eles a falta de integração entre delegacias, Judiciário,
assistência social e saúde; o monitoramento insuficiente das medidas
protetivas; e a ausência de políticas permanentes voltadas aos homens autores
de violência.
De acordo com ela, pesquisas
realizadas durante seu doutorado, em uma Vara de Violência Doméstica de
Pernambuco, identificaram índices menores de reincidência entre homens que
participaram de grupos reflexivos estruturados, reforçando a necessidade de
transformar essas iniciativas em política pública permanente.
Ela também destaca que
dispositivos previstos desde 2006 continuam pouco conhecidos ou aplicados, como
os programas de responsabilização e reeducação dos agressores, o acompanhamento
do cumprimento do afastamento do agressor do lar e os direitos trabalhistas
garantidos às mulheres em situação de violência, como a manutenção do vínculo
empregatício quando precisam se afastar por segurança.
Outro desafio apontado pelo
Instituto Maria da Penha é a desigualdade no acesso à rede de proteção. Segundo
Anabel Pessôa, a situação é especialmente preocupante nos municípios do
interior de Pernambuco, onde muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades para
denunciar por falta de delegacias especializadas, atendimento 24 horas,
transporte e equipamentos de assistência social.
Para ela, a Lei Maria da Penha
não pode permanecer concentrada nos grandes centros urbanos e precisa ser
acompanhada da expansão da rede de atendimento para as regiões mais afastadas.
“Você não está sozinha”
Ao encerrar a entrevista, Maria
da Penha deixou uma mensagem às mulheres que vivem em situação de violência
doméstica.
“Eu sei o que é o medo. Eu vivi
esse medo. Mas quero dizer para cada mulher que está nessa situação: você não
está sozinha, e existe uma rede, mesmo que imperfeita, mesmo que ainda precise
melhorar muito, pensada para te proteger. Ligue 180. Procure uma delegacia da
mulher, um Centro de Referência, uma organização como o nosso Instituto.
Denunciar não é um ato contra a família, é um ato a favor da sua vida e da vida
dos seus filhos.”
Ela conclui frisando que romper o
silêncio é o primeiro passo para interromper o ciclo da violência. “O silêncio
protege o agressor, nunca protege você. E se hoje você não se sente pronta para
denunciar, pelo menos busque informação, busque uma rede de apoio, isso já é um
primeiro passo.”
Fonte: Diário de Pernambuco.


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