Horas de dedicação a um jogo de
celular trancado em um quarto levou a uma situação que fez com que o caso de um
adolescente de 14 anos fosse parar nos jornais de Pernambuco. O jovem foi
apreendido no Recife após esfaquear o próprio pai enquanto ele dormia. À
polícia, o menino relatou ter recebido orientações dentro da plataforma Roblox.
O caso, ainda sob investigação, pode ser mais um de aliciamento de menores de
idade em ambientes virtuais.
Segundo dados da pesquisa TIC
Kids Online Brasil, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mais de 24
milhões de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos usam a internet no país, o
equivalente a 93% dessa população. Entre eles, a maioria acessa plataformas com
interação direta entre usuários, como jogos online e redes sociais, muitas
vezes sem supervisão constante dos responsáveis.
É nesse ambiente que criminosos
encontram espaço para agir e o processo raramente começa com violência
explícita. Na maioria das vezes, ele se constrói pela confiança.
“O criminoso nunca vai se
apresentar como alguém de má índole. Pelo contrário: será sempre alguém com uma
foto simpática, aparentemente disponível, acolhedor e disposto a ajudar. Porque
o objetivo principal é ganhar confiança”, afirma o professor e especialista em
segurança digital Eronides Meneses.
Segundo ele, o principal erro dos
pais não é necessariamente negligência, mas o excesso de confiança na falsa
segurança do ambiente doméstico. “Os pais veem os filhos dentro de casa, no
quarto, e acreditam que eles estão seguros. Porém, deixam esse acesso livre,
sem qualquer tipo de supervisão, e é aí que mora o perigo.”
Jogos como Roblox, Free Fire,
Fortnite e plataformas paralelas como Discord se tornaram espaços de
convivência para milhões de adolescentes.
“Crianças e adolescentes precisam
de supervisão constante, assim como acontece na vida real, também na vida
digital. Você está entregando um equipamento que pode transformá-los em
verdadeiras marionetes de quem está do outro lado da tela. Eles podem ser
seduzidos para o crime, para situações de violência, porque querem ser aceitos
naquele grupo em que estão inseridos, muitas vezes dentro de jogos online”,
explica Eronides.
O aliciamento
Segundo ele, esse tipo de
aliciamento segue um roteiro conhecido e o criminoso busca ganhar confiança da
vítima. A aproximação também costuma acontecer por meio de recompensas
aparentemente inofensivas.
“Eles se infiltram em ambientes
frequentados por crianças e adolescentes, como jogos online, oferecendo
brindes, vantagens dentro do jogo, ajuda para alcançar objetivos ou evoluir de
fase. Também atuam em aplicativos de comunicação, como o Discord, fingindo ter
a mesma idade ou apenas um pouco mais velhos.”
No caso investigado em
Pernambuco, a promessa teria sido justamente a entrega de Robux, moeda virtual
utilizada dentro do Roblox. “Nesse caso específico, foi relatado que houve a
oferta de moeda virtual dentro do jogo, como Robux, do Roblox, como recompensa
pela participação no desafio. O adolescente, sem a noção real do perigo,
acredita que aquilo é apenas uma brincadeira ou algo reversível. Muitas vezes,
a criança sequer compreende a gravidade da situação”, complementa Eronides
Meneses.
Exposição em excesso culmina em cenários
críticos
Para a psicóloga e psicopedagoga
Kátia Guerra, a exposição a este tipo de plataformas sem supervisão influencia
diretamente o desenvolvimento emocional e psicológico das crianças e
adolescentes. “Isso porque a criança ou o adolescente ainda está em processo de
construção das suas referências internas, como autorregulação, senso crítico,
limites e percepção de risco”, elucida.
Ela explica que, do ponto de
vista da neurociência, a permanência prolongada nesses ambientes pode afetar a
forma como o cérebro responde a estímulos e ameaças. “Em ambientes digitais
abertos, eles podem entrar em contato com conteúdos, linguagens e dinâmicas que
ultrapassam sua capacidade de elaboração emocional. Do ponto de vista da
neurociência, isso pode gerar uma ativação constante de sistemas de alerta,
favorecendo impulsividade, ansiedade e dificuldade de regulação.”
Segundo a especialista, muitas
vezes o uso excessivo da internet não é a causa principal, mas um sintoma de
fragilidades emocionais já existentes. “Em muitos casos, o que se observa não é
apenas o uso do jogo, mas uma tentativa de preencher um vazio, uma busca por
conexão onde há, muitas vezes, desamparo emocional”, observa.
Após o endurecimento das regras
de segurança do Roblox no início do ano, com maior restrição ao chat de voz e
exigência de verificação etária para determinadas interações, usuários menores
de 18 anos fizeram manifestações on-line como forma de se mostrarem contrários
ao novo cenário.
Crianças são sinais de “alerta”
O especialista em segurança
digital Eronides Meneses afirma que as vítimas mudam de comportamento no
período do aliciamento. “Passam a esconder o celular quando o pai ou a mãe se
aproximam, criam senhas, não deixam ninguém ver o aparelho. Esses pequenos
sinais são importantes. Quando o filho esconde algo, é porque existe alguma
coisa que ele não quer que os pais descubbram”, alerta Eronides.
A psicóloga Kátia aponta mudanças
emocionais semelhantes. “Entre eles, destacam-se alterações no humor, como
irritabilidade frequente, tristeza ou ansiedade sem causa aparente; mudanças no
padrão de sono; isolamento social progressivo; perda de interesse por
atividades que antes eram prazerosas; queda no rendimento escolar; e uma
necessidade excessiva de estar conectado.”
Diante desse cenário, a
orientação dos especialistas é reduzir o tempo de tela e fortalecer vínculos.
“Estratégias baseadas no medo ou no controle excessivo tendem a gerar afastamento,
resistência e, muitas vezes, ocultação de comportamentos. O caminho mais
efetivo é o da construção de vínculo e diálogo”, afirma Kátia.
“Conversar sobre o ambiente
digital precisa partir de uma postura de curiosidade genuína e interesse real pelo
universo da criança ou do adolescente. Perguntar sobre os jogos, sobre o que
eles gostam, com quem interagem, cria uma ponte de comunicação”, complementa.
Fonte: Diário de Pernambuco.


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