Mesmo sendo maioria da população
e do eleitorado, mulheres seguem minoria nos espaços de poder no Brasil e em
Pernambuco. Na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), por exemplo,
apenas sete mulheres estão presentes entre as 49 cadeiras disponíveis.
No Executivo, o cenário histórico
também evidencia a desigualdade. Após a redemocratização, Pernambuco teve
apenas uma mulher eleita governadora em 12 mandatos: Raquel Lyra (PSD).
Essa desigualdade leva a um
cenário comum a quase todas as mulheres que assumem mandatos: a violência
política de gênero. A prática comumente ainda vem aliada a mais ameaças de
morte e de violência sexual fora do ambiente parlamentar, como denunciou a
vereadora Kari Santos (PT), na última semana, na tribuna da Câmara do Recife.
Ao Diario, a parlamentar
reafirmou que recebe ameaças constantes nas redes sociais e por e-mail, além de
descrever episódios recorrentes de desrespeito dentro da Câmara do Recife.
“Temos sido vítimas de diversos
episódios de violência política de gênero. Somos desrespeitadas cotidianamente
pelos homens da Casa, que conversam enquanto falamos, vão embora na hora das
nossas falas, gritam e até mesmo são agressivos quando nós estamos na mesa”,
conta.
A fala da vereadora não expõe
algo esporádico, muito pelo contrário. À reportagem, outras lideranças
políticas femininas do estado relataram mais casos de violência política de
gênero e falaram sobre os desafios de atuar em um ambiente majoritariamente
masculino.
“Foi mulher na política, está
sujeita à violência política de gênero. São episódios de várias espécies de
violência que tentam silenciar a mulher e dizer que aquele lugar não é dela”,
define a deputada estadual Dani Portela (PT).
“Já sofri ataques e ameaças de
morte, ameaças contra a minha própria vida. Dizem que vão tirar a flor da minha
cabeça com a espada de Duque de Caxias ou que vão dar tiros, dizendo o calibre
e o tipo de arma”, complementa a deputada.
Dani também relatou ataques
racistas e tentativas de desqualificação de sua atuação parlamentar. “Comigo
vem muito essa coisa de desqualificar a fala, ‘não sabe o que está falando’,
‘cala a boca’. Vem muito racismo também, de querer me diminuir por ser uma
mulher negra e dizer que eu deveria estar limpando os nossos banheiros e não
sendo parlamentar.”
Na Câmara do Recife, a vereadora
Ana Lúcia (Republicanos), 2ª vice-presidente da Câmara do Recife, também relata
episódios de interrupções constantes. “Já teve vereadores homens subindo à mesa
diretora para confrontar uma decisão tomada por mim. Além disso, é constante o
barulho quando nós mulheres estamos na tribuna fazendo uso da palavra. (Também)
Interrompem a nossa fala. Isso é uma violência de gênero”, enumera.
Em Olinda, a vereadora Eugênia
Lima (PT) afirma que já teve a fala impedida em mais de uma ocasião na Câmara
Municipal. “Eu havia me inscrito para falar, tinha um acordo entre os pares
para que eu usasse a tribuna e quando chegou a minha vez a mesa diretora,
composta só por homens, simplesmente decidiu encerrar a sessão.”
Outro episódio ocorreu durante a
votação de um título honorífico. “Quando aprovaram o título de cidadão a (Jair)
Bolsonaro, fui a única que votou contra e também não tive direito de justificar
meu voto, de falar. Esses incidentes foram manobras para calar a minha voz”,
denuncia.
Na Câmara dos Deputados, a
deputada federal Maria Arraes (Solidariedade) também relatou situações de
intimidação no ambiente parlamentar. “Já houve momentos em que deputados homens
tentaram falar mais alto ou intimidar, acreditando que isso poderia me fazer
recuar.”
“A violência política de gênero
muitas vezes não aparece apenas em ataques explícitos, mas também em atitudes
sutis: interrupções constantes quando uma mulher fala, questionamentos sobre
sua firmeza ou competência, ou a tentativa de rotular posições políticas
legítimas como ‘melindre’, ‘exagero’ ou ‘intransigência’. Já presenciei e vivi
situações que deixam isso evidente”, resume a deputada estadual Débora Almeida
(PSDB).
“A violência política de gênero
muitas vezes se manifesta em atitudes sutis do cotidiano: na tentativa de
deslegitimar a fala de uma mulher, na interrupção constante, no questionamento
da sua capacidade ou na tentativa de reduzir sua atuação a estereótipos”,
complementa a vereadora de Olinda, Denise Almeida (PSD)
Por outro lado, a deputada
federal Clarissa Tércio (PP) foi a única parlamentar entrevistada pela
reportagem que disse não se considerar vítima de discriminação no ambiente
político. “Na minha experiência, o fato de ser mulher na política muitas vezes
abre portas. Eu nunca me senti discriminada por homens no ambiente político.
Sempre fui muito bem tratada por onde chego.”
Segundo ela, divergências que
surgem na política ocorrem no campo das ideias. “Quando existem divergências,
elas acontecem no campo das ideias, no campo ideológico. Debato com homens e
debato com mulheres da mesma forma, e quando há críticas ou ataques, eles se
dão justamente nesse espaço do debate político.”
Fonte: Diário de Pernambuco.


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