Governo Lula cancela edital que previa abertura de vagas em cursos privados de Medicina


 

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) revogou o edital de chamamento público que previa a autorização para a abertura de até 5,9 mil vagas em cursos de Medicina em instituições privadas pelo país. Assinado pelo ministro da Educação, Camilo Santana (PT), o ato foi publicado em edição extra do Diário Oficial da União, nesta terça-feira, e tem validade imediata.

O cancelamento ocorre semanas depois da divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), prova de realização obrigatória que classifica os cursos de Medicina no país. Das 351 graduações participantes, 107 (30,5%) tiveram desempenho tido como insatisfatório, quando menos de 60% dos alunos são considerados proficientes.

Lançado em 2023 e adiado quatro vezes antes do ato de revogação, o chamamento público visava a selecionar propostas de instituições de ensino superior privadas no âmbito do Programa Mais Médicos. Procurado pelo GLOBO, o Ministério da Educação (MEC) ainda não se manifestou.

Os resultados do Enamed mostraram que mais de um terço dos estudantes que se formam em Medicina em cursos privados pelo país concluem a graduação sem obter qualificação mínima. Especialistas ouvidos pelo GLOBO destacaram que o fenômeno foi puxado por universidades abertas em um período recente, num recorte de pouco mais de uma década.

De acordo com levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM), 56% dos cursos com conceitos 1 e 2 foram criados a partir de 2014. O ano anterior, 2013, marcou a promulgação da Lei do Mais Médicos, que alterou oprocesso de autorização de cursos de medicina no país. A submissão de propostas passou a ser condicionada a processos de chamamento público quando se trata dacriação de novos cursos de medicina em instituições de educação superior privadas.

Segundo o Ministério da Educação, de 2013 a agosto de 2025, a Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior publicou cincoeditais de chamamento públicopara seleção de propostas para autorização de funcionamento de cursos de medicina no âmbito do Programa Mais Médicos.

De 24.487 formandos inscritos em instituições particulares com ou sem fins lucrativos que fizeram o exame aplicado em 2025, 9.489 — 38,8% — não atingiram o patamar de proficiência, de ao menos 60% de acertos. Ao todo, o Enamed teve 89.024 alunos avaliados, entre concluintes e estudantes de outros períodos.

Nas faculdades privadas com fins lucrativos, que compõem o principal grupo de inscritos (39%), 61% dos cursos de Medicina ofertados ficaram entre os níveis 1 e 2 no Enamed, de uma escala de 5, desempenho classificado como insatisfatório pelo MEC. As universidade particulares, com ou sem fins lucrativos, respondem pela maior fatia entre as que pararam nos níveis 1 e 2 do exame: 87 de 107.

Conceitualmente, pesquisadores da área elogiaram ao GLOBO a premissa dos chamamentos públicos, por seu objetivo de suprir a carência de profissionais de Medicina em pequenas cidades desassistidas, a maioria no interior e locais remotos. A estratégia, porém, teria vindo acompanhada da abertura de cursos de baixa qualidade e de uma profusão de estudantes sem avaliação continuada. Além das novas instituições induzidas pelo governo federal, houve, nesse período, muitos cursos criados a partir de liminares judiciais, dificultando ainda mais o rigor técnico.

A grande quantidade de vagas criadas via decisão judicial nos últimos anos teria motivado a revogação do edital. Não há prazo para que a proposta seja retomada.

Fonte: Folha de Pernambuco.

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