Ataques em escolas, como o
ocorrido na terça-feira (6) em Garanhuns, no Agreste pernambucano, onde
uma estudante esfaqueou outra dentro da unidade de ensino, podem acarretar no
adoecimento mental da comunidade escolar. O alerta é feito pela psicóloga e
psicanalista Luciana Inocêncio, que explica como episódios do tipo deixam
marcas de insegurança e medo em instituições de ensino.
Em entrevista, a psicóloga
afirmou que o caso mostra a necessidade de ações preventivas dentro das
escolas, especialmente no combate ao bullying.
“Tanto nesse caso quanto em
outros episódios recentes, fica muito claro para a gente que são necessárias
campanhas e ações dentro das escolas para discutir bullying”, observa.
De acordo com a psicóloga, os
impactos de episódios violentos se espalham entre estudantes e
funcionários, gerando consequências psicológicas que podem durar meses ou até
anos.
Ela explica que um dos quadros
mais comuns após situações traumáticas dentro do ambiente escolar é o
transtorno de estresse pós-traumático, acompanhado de sintomas de ansiedade.
“Dentro desse quadro, aparecem
ansiedade generalizada e, muitas vezes, transtorno de pânico. Muitos estudantes
passam a não querer voltar para a escola”, destaca.
“Existe uma sensação de
insegurança que já paira há muitos anos dentro das salas de aula, à medida que
aumentou o nível de desrespeito ao professor. Não é apenas o ataque ao colega,
mas também o enfraquecimento da figura do professor, que antes representava
respeito, autoridade, limite e regras”, complementa.
Professores também adoecem
A psicóloga pontua que os
professores estão entre os profissionais mais afetados pelo desgaste emocional
dentro das escolas. Para ela, a violência e os conflitos cotidianos aumentam o
cenário de adoecimento.
“Temos um país em que os
profissionais da educação estão adoecidos. E isso não sou eu quem está dizendo,
são os índices, os números de profissionais afastados por burnout e outros
problemas de saúde mental. Uma das categorias mais afetadas é justamente a da
educação”, afirma.
Ela aponta a sobrecarga de trabalho
e as dificuldades na relação entre professor e aluno como pontos que afetam a
saúde mental destes profissionais. “Muitas vezes, o professor precisa mediar
conflitos e nem sempre tem preparo profissional para lidar com esse tipo de
situação”, explica.
Segundo a especialista, apenas a
presença de psicólogos nas instituições de ensino não é suficiente para evitar
tragédias. “É preciso entender qual trabalho está sendo realizado com os
alunos, que tipo de combate ao bullying existe e até que ponto isso está
funcionando”, diz.
Luciana explica que, na maioria
das vezes, o trabalho do psicólogo escolar não é voltado para acompanhamento
clínico.
“Muitas vezes, esses
profissionais atuam mais na área da aprendizagem e acabam não tendo um foco
clínico, porque a escola não permite esse tipo de acompanhamento aprofundado”,
pontua.
A psicóloga também chama atenção
para a necessidade de acolhimento coletivo após episódios traumáticos. “A
comunidade escolar, no geral, precisa ser ouvida e acolhida. Também são
necessários programas que ajudem a desenvolver ações preventivas para tudo
isso”, conclui.
Sofrimento psíquico
Para Luciana Inocêncio, casos de
violência escolar também revelam um sofrimento emocional dos próprios
adolescentes envolvidos. “Para uma pessoa chegar a esse ponto, ela já vem
passando por um desequilíbrio emocional muito grande. A questão é até que ponto
isso foi percebido pela família ou pela escola”, afirma.
Ela destaca ainda que a repetição
desses episódios pode acabar influenciando outros jovens, especialmente em uma
geração já fragilizada emocionalmente. “Muitos jovens já passam a ter esses
ataques como referência para tentar fazer justiça com as próprias mãos,
agravando ainda mais uma estrutura escolar que já está fragilizada”, conclui.
Fonte: Diário de Pernambuco.


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