“A energia elétrica não tem
cheiro nem cor. Quando você percebe, já está diante do efeito, que pode ser um
choque ou um incêndio.”
O alerta é do gerente operacional
da Neoenergia, Fábio Barros, e resume um risco que faz parte da rotina de
milhares de pessoas dentro de casa, muitas vezes sem que elas percebam.
O uso cotidiano de aparelhos
eletrônicos, feito de forma automática e sem atenção, pode esconder perigos
sérios à segurança.
Carregadores conectados o tempo
todo, extensões sobrecarregadas e equipamentos sem certificação estão entre os
principais fatores que podem provocar choques elétricos, curtos-circuitos e até
incêndios em residências.
De acordo com especialistas, o
problema não está apenas nos equipamentos, mas principalmente na forma como são
utilizados no dia a dia.
“O risco é uma combinação dos
dois fatores: tanto a qualidade do equipamento quanto a forma de uso. Um
aparelho fora do padrão ou utilizado de maneira incorreta aumenta muito a
chance de acidente”, explica o engenheiro eletricista Fernando Carvalho,
professor da César School, da Universidade de Pernambuco.
Sobrecarga silenciosa
Um dos principais perigos está na
sobrecarga da rede elétrica, situação comum em residências onde vários
aparelhos são ligados simultaneamente em uma mesma tomada ou em dispositivos
como extensões e benjamins, conhecidos popularmente como “T”.
“A sobrecarga acontece quando
você exige mais da instalação do que ela suporta. Com o tempo, isso gera
aquecimento e pode provocar curtos-circuitos”, explica Fábio Barros.
Segundo ele, o uso desses
adaptadores deve ser evitado sempre que possível. “Quando você usa extensão ou
‘T’, você multiplica o uso de uma única tomada, o que pode causar sobrecarga e
acidentes”, afirma.
Fernando Carvalho reforça que
esses dispositivos não devem ser usados de forma contínua. “O ‘benjamin’ é uma
ligação improvisada, que deveria ser usada apenas em situações emergenciais. No
uso constante, ele sobrecarrega a rede e aumenta o risco de aquecimento e
incêndio”, alerta.
Ele também chama atenção para a
capacidade elétrica dos equipamentos. “Hoje, muitos eletrodomésticos demandam
mais energia, como airfryer, micro-ondas, máquina de lavar e ar-condicionado.
Esses aparelhos precisam de tomadas e fiação compatíveis. Usar adaptadores
nesses casos é um risco significativo”, explica.
Improvisos na rede elétrica
também estão entre os principais problemas identificados. “Puxar um fio de uma
tomada comum para ligar um equipamento mais potente, como um ar-condicionado, é
um erro grave e pode sobrecarregar todo o circuito”, completa Fábio.
Carregadores e pequenos aparelhos
exigem atenção
Apesar de compactos e presentes
em praticamente todos os lares, os carregadores de celular estão entre os
equipamentos que exigem maior cuidado.
O aspirante do Corpo de
Bombeiros, Rafael Carneiro, explica que deixá-los conectados à tomada, mesmo
sem uso, não é uma prática segura.
“Mesmo quando não está em uso,
ele pode sofrer com picos de energia e apresentar falhas que levam ao
superaquecimento”, afirma.
Fernando Carvalho chama atenção
para outro fator: a qualidade dos dispositivos. “Carregadores falsificados ou
de baixa qualidade podem fornecer uma tensão inadequada, o que danifica a
bateria e pode gerar aquecimento excessivo. Em casos extremos, isso pode
provocar incêndio”, explica.
O risco aumenta quando esses
equipamentos são usados de forma inadequada. “É comum a pessoa colocar o
celular para carregar na cama e continuar usando. O aparelho já aquece durante
o carregamento e, com o uso simultâneo, esse aquecimento aumenta. Em contato
com materiais inflamáveis, isso se torna perigoso”, diz.
Além disso, o uso de baterias não
originais agrava ainda mais o cenário. “Quando você troca por uma bateria que
não foi certificada, o sistema perde parte do controle de segurança. Isso eleva
o risco”, completa.
Sinais de alerta nem sempre são
percebidos
Embora a rede elétrica não seja
visível, alguns sinais podem indicar que há algo errado na instalação.
Segundo o Corpo de Bombeiros,
aquecimento excessivo e alterações físicas nos materiais são indicativos
importantes.
“Aquecimento, derretimento ou
mudança na cor dos fios e tomadas são sinais claros de que aquele ponto está
operando acima da capacidade”, destaca Rafael Carneiro.
O engenheiro Fernando Carvalho
explica que esses sinais estão diretamente ligados à sobrecarga. “Quando a
instalação está sobrecarregada, é comum perceber o desarme frequente do
disjuntor, tomadas quentes, fios aquecendo e até quedas de energia em
determinados pontos da casa”, afirma.
Outro indicativo importante é o
comportamento dos aparelhos. “Lâmpadas oscilando ou equipamentos que desligam
sozinhos podem indicar que a rede está sendo exigida além do limite”,
acrescenta.
Ele também faz um alerta técnico
importante. “Muita gente resolve o problema trocando o disjuntor por um mais
potente. Isso é perigoso, porque o disjuntor foi dimensionado para proteger
aquela instalação. Ao aumentar a capacidade dele, você perde essa proteção”,
explica.
Além disso, o cheiro pode
denunciar o risco. “Cheiro de plástico queimado indica que o isolamento dos
fios pode estar derretendo, o que pode evoluir para um curto-circuito”,
completa.
Como ocorre um curto-circuito
Um dos principais riscos
associados à sobrecarga é o curto-circuito, que pode ser o ponto de partida
para incêndios.
Fernando Carvalho explica que o
problema acontece quando há contato direto entre os condutores elétricos. “Em
uma instalação, você tem fios com funções diferentes. Quando eles encostam
diretamente, sem um equipamento intermediando essa passagem de energia, ocorre
o curto-circuito”, detalha.
Segundo ele, esse contato gera
uma corrente extremamente elevada. “Essa corrente provoca um aquecimento muito
rápido, que pode derreter a fiação e gerar faíscas, iniciando um incêndio”,
afirma.
O risco aumenta em instalações
antigas ou comprometidas. “Com o tempo, o isolamento dos fios resseca ou se
deteriora. Quando esse isolamento falha, os fios podem se tocar e provocar o
curto”, explica.
Ele também destaca o papel da
qualidade dos materiais. “Extensões muito baratas, sem certificação, utilizam
materiais de baixa qualidade. O isolamento pode não suportar o aquecimento e
falhar com mais facilidade”, completa.
Casas antigas demandam revisão da
rede elétrica
A atenção deve ser redobrada em
imóveis mais antigos, que muitas vezes não foram projetados para suportar a
quantidade de aparelhos eletrônicos utilizados atualmente.
“Em imóveis mais antigos, é
fundamental revisar a instalação elétrica com um profissional e, se necessário,
fazer a substituição da fiação e dos disjuntores”, orienta o bombeiro.
Fernando Carvalho destaca que o
problema tende a se agravar com o tempo. “As instalações antigas foram
projetadas para uma realidade com menos equipamentos. Hoje, você adiciona
ar-condicionado, computadores, eletrodomésticos, e isso sobrecarrega a rede”,
explica.
Ele também chama atenção para o
envelhecimento dos materiais. “Os isolantes dos fios ressecam com o tempo e
perdem eficiência. Isso aumenta o risco de falhas e curto-circuito”, diz.
Outro ponto crítico é a ausência
de dispositivos modernos de proteção. “Muitas instalações antigas não possuem o
DR, que é um dispositivo fundamental para proteger contra choques elétricos”,
acrescenta.
Fábio Barros ressalta que o mais
importante é a qualidade da instalação. “Mais importante que a idade do imóvel
é a qualidade da instalação. O ideal é fazer revisões periódicas com
profissionais capacitados”, afirma.
Como agir em caso de incêndio
elétrico
Em situações de princípio de
incêndio envolvendo equipamentos elétricos, a orientação é clara: nunca
utilizar água.
“Nunca jogue água em incêndios
causados por equipamentos elétricos. O correto é desligar a energia no
disjuntor e, se possível, usar extintores adequados”, afirma Rafael Carneiro.
Fernando Carvalho reforça a
importância da ação imediata. “A primeira medida é desligar o circuito elétrico
no quadro de distribuição. Isso corta a fonte de energia que alimenta o fogo”,
explica.
Caso não seja possível controlar
a situação, a recomendação é deixar o local imediatamente e acionar o Corpo de
Bombeiros.
Prevenção ainda é a melhor
estratégia
Para os especialistas, evitar
acidentes elétricos passa por mudanças simples de comportamento no dia a dia.
Retirar aparelhos da tomada
quando não estão em uso, evitar sobrecargas e optar por produtos certificados
são algumas das principais recomendações.
“É fundamental verificar se a
instalação possui dispositivos de proteção, como disjuntores adequados e o DR.
O disjuntor protege a instalação e o DR protege as pessoas contra choques”,
orienta Fernando Carvalho.
Além disso, o cuidado ao manusear
equipamentos também faz diferença. “Sempre que for mexer com qualquer
equipamento elétrico, o ideal é estar com as mãos secas e, se possível,
calçado”, orienta Fábio.
Entre os erros mais comuns,
Fernando destaca o uso excessivo de adaptadores. “O uso de ‘T’ e extensões de
forma contínua é um dos principais problemas. O ideal é adaptar a instalação, e
não improvisar.”
Ele também reforça hábitos que
devem ser evitados. “Evite carregar o celular sobre a cama ou próximo a
materiais inflamáveis, principalmente durante a noite”, alerta.
No fim das contas, pequenas
atitudes podem evitar grandes tragédias dentro de casa. “O risco começa quando
o uso foge do que foi projetado”, resume Fábio Barros.
Fonte: Diário de Pernambuco.


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