Transporte público em crise: quem tá dentro quer sair. Uber e 99 Moto estão levando o passageiro cansado do transporte público ruim.

O sentimento não é de hoje, mas nunca foi tão persistente: quem está dentro do transporte público coletivo e urbano do País quer sair. Ainda é assim. A fuga acontece há pelo menos duas décadas, só que em tempos de aplicativos de transporte de passageiros - quando o transporte vai até você, onde estiver e a qualquer horário -, ela ganhou dimensões difíceis de serem combatidas.

E com a introdução da motocicleta nesse universo, com os serviços de Uber e 99 Motos, a batalha está sendo perdida, principalmente nas mais de quatro mil cidades brasileiras aonde a versão digital do moto táxi chegou desde o fim de 2021 - a maioria no Norte e Nordeste do País vale ressaltar.

O desafio do poder público e dos operadores de transporte tornou-se ainda maior, já que o passageiro tem sido ‘roubado’ pelos aplicativos porque se cansou do serviço ruim dos ônibus, metrôs e trens nas cidades. Esse cansaço é antigo, mas antes ele só tinha opções de deslocamentos caras, o que mudou com a democratização da mobilidade proporcionada pelos aplicativos.




E o crescimento foi verificado, principalmente, na população de baixa renda. Segundo a pesquisa CNT, dentre as pessoas que substituíram o ônibus pelos aplicativos de transporte, 56,6% pertencem à classe C e 20,1% às classes D/E. Quase 60% (56,9%) dos entrevistados afirmaram que deixaram de usar totalmente o ônibus (29,4%) ou diminuíram o uso (27,5%).

Os números da Pesquisa CNT assustam o setor de transporte público coletivo urbano, que vê uma permissão silenciosa das mais diferentes esferas do poder público.

Omissão por parte de muitas prefeituras, que têm a responsabilidade legal de regulamentar ou proibir o serviço de transporte de passageiros com motos, e dos Estados porque, como aconteceu em Pernambuco, concede isenção de IPVA para proprietários de motos ou parcelamento de dívidas em dez vezes.

“Não há estímulo para o transporte público, mas não faltam ações que favorecem o transporte individual. O serviço de aplicativo com motos está operando em várias cidades completamente ilegal, como é o caso do Recife - que faz vista grossa ao problema -, ao mesmo tempo em que a prioridade viária aos ônibus não avança nem na capital nem na RMR”, critica um empresário, que opera no Grande Recife, em reserva.

“E como se não bastasse, o governo do Estado decidiu estimular ainda mais a aquisição e o uso de motos, com isenções e parcelamentos do IPVA, por exemplo. Nós vemos até mais estímulo à bicicleta do que ao transporte público coletivo, que responde por 80% dos deslocamentos da população nos centros urbanos. É absurdo, o tempo passa e nada muda”, acrescenta em tom de desabafo.

Fonte: Jornal do Comercio. 

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