A crise climática e o aumento da
poluição ambiental são uma realidade inegável, trazendo impactos diretos e
negativos para a saúde humana, especialmente no que diz respeito ao sistema
respiratório. A combinação entre temperaturas extremas e poluentes atmosféricos
desafia o funcionamento dos pulmões e agrava doenças respiratórias já
existentes, como a asma e a bronquite, além de contribuir para o aumento das
infecções respiratórias. O cenário exige uma reflexão urgente sobre o futuro do
nosso meio ambiente e, consequentemente, da nossa qualidade de vida.
O aumento das temperaturas, típico
das ondas de calor intensificadas pelo aquecimento global, afeta diretamente as
vias aéreas. A exposição prolongada a temperaturas extremas causa alterações na
barreira epitelial que reveste o sistema respiratório, violando proteínas
estruturais e desencadeando processos inflamatórios e hiper-reativos, uma
espécie de “alergia” do organismo ao estresse térmico. Além disso, o calor
excessivo aumenta a frequência respiratória e o volume de ar inspirado,
sobrecarregando o sistema termorregulador do corpo e provocando constrição dos
brônquios, ou seja, um aperto que dificulta a passagem do ar.
Sob estresse térmico, nosso
organismo também ativa as chamadas proteínas de choque térmico, que agravam a
disfunção da barreira epitelial e promovem inflamações nas vias aéreas. A
consequência é um aumento significativo do estresse oxidativo, um processo que
compromete as defesas naturais do sistema imunológico pulmonar. Associado a
isso, ocorre a redução da atividade mucociliar, responsável por limpar as vias
respiratórias, o que torna os pulmões ainda mais vulneráveis a infecções.
A situação se agrava com a
presença de poluentes no ar. Durante períodos de calor extremo, queimadas e
maior circulação de veículos, o material particulado fino, o ozônio e outros
poluentes atmosféricos aumentam drasticamente, tornando o ar das cidades uma
ameaça constante. Esse ambiente poluído potencializa os sintomas respiratórios,
como tosse, falta de ar e exacerbação de doenças como a asma. Os riscos de
infecções respiratórias também crescem, muitas vezes com maior gravidade e
necessidade de intervenções médicas.
Vale destacar que os efeitos do
calor não são apenas físicos. O estresse mental provocado pelas altas
temperaturas contribui para a queda da imunidade, tornando o organismo ainda
mais suscetível a doenças. Esse fator psicoemocional, muitas vezes
negligenciado, precisa ser considerado como parte do quadro geral de saúde da
população.
Outro desafio é a prática de
exercícios físicos em meio a um cenário de calor extremo e poluição,
especialmente em regiões como o Nordeste brasileiro. É inegável que a atividade
física é fundamental para a saúde mental e corporal, mas como compatibilizá-la
com as adversidades climáticas e urbanas? As caminhadas ao ar livre, benéficas
e acessíveis, tornam-se impraticáveis em centros urbanos sufocados pelo
trânsito, poluição e insegurança pública. Isso leva muitas pessoas a buscar
academias de ginástica, onde, embora protegidas do clima, são expostas a
ambientes fechados, com circulação de ar limitada e maior risco de contaminação
por microrganismos devido à aglomeração.
Portanto, o cenário é preocupante
e nos convoca a agir sem demora. A relação entre o meio ambiente e a saúde
humana é inseparável, e a degradação ambiental já mostra suas consequências de
forma clara e dolorosa. Precisamos repensar nossas práticas e políticas
públicas para reduzir os impactos do aquecimento global e da poluição. A busca
por soluções sustentáveis, como a expansão de áreas verdes, o incentivo a
fontes de energia limpa e a redução de emissões de poluentes, é urgente.
Para o bem da nossa saúde, em
especial da saúde pulmonar, devemos entender que proteger o meio ambiente
significa proteger a nós mesmos. Ignorar essa realidade pode custar muito mais
do que imaginamos. É hora de agir.
Dr. Murilo Guimarães,
pneumologista.
Fonte: Jornal do Commercio.


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