O prefeito do Recife, João Campos (PSB), vai entrar no seu último ano de mandato com o maior orçamento do Recife nos últimos anos: R$ 8,2 bilhões. Isso vai permitir, segundo ele, um volume significativo de obras e também tirar do papel projetos para solucionar problemas históricos da cidade . Nessa entrevista à Folha de Pernambuco, ele detalha alguns desses projetos, conversa sobre política, e fala sobre a decisão, anunciada na quarta-feira (13), de abrir mão de R$ 7,5 milhões que o Recife iria receber do Governo do Estado, na forma de repasses do ICMS, para que o projeto de redistribuição do imposto - de autoria do Executivo estadual - fosse aprovado na Alepe.
ALAGAMENTOS
“A pior área de drenagem da cidade é a bacia do Rio Tejipió que inclui os
afluentes desse. A gente fez a parte mais difícil que é captar dinheiro. Serão
vários níveis de soluções diferentes que juntos vão resolver, como alguns
bolsões e acumulações de água. A gente está fazendo, o que nunca foi feito na
história. A gente vai fazer obras que o Recife nunca viu. O Recife não conhece
um dique pra conter enchente, não conhece o que é um parque alagável pra conter
enchente, como a gente vai fazer. Vamos ter que explicar isso às pessoas. Mas o
que a gente tá fazendo aqui é o que a engenharia e o mundo têm feito. Os
problemas crônicos de alagamento vão ter soluções que nunca tiveram.”
POPULAÇÃO DE RUA
“80% de quem está em situação de rua hoje, no Recife, tem ou dependência
química ou algum transtorno mental. A gente está aumentando a rede de acolhida.
Temos 12 casas, todas sendo reformadas e estamos construindo novas. Tem
restaurante popular, abrigo noturno e cozinha comunitária que estão sendo
expandidos. É preciso fortalecer o atendimento psicossocial. Isso a gente está
fazendo, fortalecendo os CAPES. Mas eu acho que o Brasil deveria fazer uma
discussão sobre saúde mental muito mais profunda, que começasse nas escolas.
Temos uma finitude de mão de obra nessa área, por exemplo.”
OCUPAÇÃO DO CENTRO
Você precisa criar um incentivo para trazer as pessoas para morar no centro.
Como é que se faz isso? Primeiro, ter incentivo tributário. Quem investir no
centro, tem que pagar menos imposto. É isso que a gente faz, é isso que o mundo
todo faz. Tem que ter crédito mais barato. Além disso, o Minha Casa, Minha Vida
tem uma linha retrofit, que não tinha antes. A gente lutou muito para conseguir
isso. Você receber dinheiro para retrofitar um prédio. A primeira PPP de
locação social do Brasil feita junto com a Caixa Econômica Federal vai ser aqui
no Recife. Pegar seis prédios que estão abandonados, retrofitar e colocar gente
para morar.
CRECHES
“A primeira vaga de creche do Recife foi aberta em 1981. Eu assumi em 2021,
quarenta anos depois. Nesse tempo, foram abertas 6,5 mil vagas. Em quatro anos,
a gente vai entregar outras 6,5 mil vagas. Como é que faz em quatro anos o que
foi feito em 40 anos? É trabalhando muito.”
ORLA PARQUE
“É uma obra muito grande que será realizada através de contratos diversos. Não
iremos tratar somente de Boa Viagem, Pina ou Brasília Teimosa. É Orla Recife.
Vamos fazer tudo no mesmo padrão, na mesma qualidade. O maior contrato vai ser
o do calçadão, ciclofaixa, iluminação, parque de paisagismo, as centralidades,
entre outros. Vamos finalizar o contrato até o início de janeiro e a
expectativa é de que, no início de fevereiro, comece a obra do calçadão. É uma
obra em torno de R$ 100 milhões. A gente passou mais de um ano e meio estudando
e montando o projeto, pegando referências Brasil e mundo afora do que dava
certo e do que não dava, para chegar no projeto no Recife.”
GERALDÃO
"A gente lançou um primeiro edital e depois fizemos uma revisão, retirando
o edital. Ele passou por algumas consultas no Tribunal de Contas, alguns
ajustes. Após a aprovação do TCE, vamos relançar o edital de concessão do
Geraldão. Há uma expectativa disso acontecer no próximo ano. O edital tem duas
frentes: uma é a manutenção do equipamento e o outro é potencializar a captação
de eventos.”
INCENTIVO À CULTURA
"A gente tem uma agenda muito intensa na cultura, com muitas conquistas.
Não existia antes uma lei de patrimônio vivo do Recife e a gente criou essa
lei. Anualmente, são três pessoas ou instituições eleitas através de votação,
passando pelo Conselho de Cultura. Isso é uma conquista muito forte para a
cultura popular. Temos também um sistema de incentivo à cultura. Tivemos um
processo inteiro de lançamento de editais, com a profissionalização da escolha.
A gente vai ter uma comissão de pareceristas, que se chamam as pessoas que
avaliam os projetos. “
RÉVEILLON E CARNAVAL
“O modelo do Carnaval do Recife do próximo ano já está consolidado, pronto,
montado, todo desenhado. Já temos quase 90% das contratações feitas. O Carnaval
é a realização mais difícil de ser feita na cidade. Temos duas pessoas de
gestão que monitoram todo esse processo. Não haverá mudanças. Esse Réveillon é
um formato novo. É uma festa que o mundo inteiro comemora. Quem sai ganhando é quem
potencializa as atrações locais para captar turistas. Fizemos esse modelo com
uma parceria público-privada, sem custo, com 97% do chão ocupado de forma
gratuita e 75% do palco. Serão R$ 7 milhões investidos, mas zero da Prefeitura.
Economizamos recursos para lançar três novos polos: Casa Amarela, Ibura e Lagoa
do Araçá.”
INVESTIMENTOS
“A gente tem batido recordes de investimentos em todas as áreas. Isso é um
desafio. Não adianta ter dinheiro se não se tem capacidade de fazer. Fiz uma
seleção simplificada de engenheiros e arquitetos com aproximadamente 200
profissionais É preciso ter gente para fazer projeto, para fiscalizar obra.
Vamos passar de R$ 700 milhões investidos este ano. É o maior da história do
Recife. No próximo ano, minha meta é o Recife ser a primeira cidade do Nordeste
em investimento público, ultrapassando cidades que têm uma arrecadação maior
como Salvador. Tem como fazer. Agora, isso, lógico, demanda um esforço de
gestão enorme.”
OBRAS NOS MORROS
“Durante a eleição, não foi um compromisso verbalizado bater recorde de
investimento e infraestrutura de morros. A gente tinha uma média de
investimento na cidade que era de R$ 30 milhões por ano em infraestrutura de
morro. São mais de 3,4 mil obras entregues em áreas de morro. Vamos fechar este
ano com R$ 120 milhões. O que era R$ 30 milhões, virou R$ 120 milhões. Por isso
que tem muita obra.”
BID
“São dois empréstimos: um de R$ 500 milhões e outro de R$ 1,5 bilhão. A gente
já recebeu R$ 126 milhões dos R$ 500 milhõe. Agora entrou os primeiros R$ 64
milhões do (empréstimo) de R$ 1,5 bilhão. A turbina está sendo ligada e ela vai
começar a acelerar mesmo a partir do próximo ano. Então, o volume de obras que
a gente já vê é sem o maior volume dos R$ 2 bilhões do BID. A partir do ano que
vem, cinco anos para frente é obra que não acaba mais. O dever de casa que a
gente fez até aqui, rodou muita coisa com recursos próprios e um pouco com
operação nacional de crédito com Caixa Econômica e Banco do
Brasil”.
REFORMA TRIBUTÁRIA
“É inegável que o Brasil precisa de uma reforma tributária. Mas que seja o mais
justa possível. Se você quebrar um mecanismo de incentivo do dia para noite,
várias empresas deixam o Nordeste para ir a outro lugar. Então, tem que ter
mecanismos de proteção de desigualdade regional como o fundo compensação. E
super tributar a área de serviços é um risco muito grande, principalmente para
cidades como o Recife. Os principais setores estão protegidos no texto, a
exemplo da saúde e educação. E talvez a principal medida que a gente tenha
conseguido colocar – fico feliz de ter sido um articulador direto disso – é um
dispositivo para regeneração de centros urbanos. Ele vai possibilitar que áreas
de degradação urbana possam ter um regime especial de tributação. como será o Porto
Digital.”
ACORDO SOBRE ICMS
“Eu acho que a nossa prática tem que caber dentro do discurso. Eu disse lá na
Amupe. Se tiver uma solução que precise do apoio de Recife, Se for algo
razoável, contem comigo porque eu acho uma coisa injusta você botar quem é grande
para brigar com o pequeno, como se tivesse essa diferença de tamanho. Estou
sendo coerente com o que eu disse. Estranho seria se eu tivesse dito isso e, ao
receber uma ligação do deputado Álvaro Porto (presidente da Alepe), eu tivesse
dito não tem nada a ver comigo.Eu não sou assim. Se eu puder ajudar, eu vou
ajudar. Os R$ 7,5 milhões, é menos de 1% do repasse de ICMS ao Recife. Eu
vou ter um dever de casa que é ir atrás desses R$ 7,5 milhões de outra forma.
Se pegar a arrecadação do ISS deste ano e for verificar a do próximo ano, vocês
me cobram se a gente não tiver incrementado esse valor em R$ 7,5 milhões.”
ELEIÇÕES 2024
“A gente falou aqui de empatia, de se colocar um lugar do outro. Eu me coloco
também no do eleitor e do cidadão, principalmente. Eu tenho certeza que o
pessoal quer me ver trabalhando, focando na gestão, focando nas entregas do que
estar focado na disputa política ou na eleição. A gente tá fechando o ano e o
ano que vem é eleitoral. A partir do momento que vai chegando o período
eleitoral as decisões vão sendo tomadas. A gente tem aquela máxima de que ‘quem
tem prazo não tem pressa’. Vocês não vão ver a minha agenda ser diferente. Do
dia que eu assumi até aqui, eu trabalho de forma intensa e não vou parar.
PT NA VICE
“Vários partidos aliados nos ajudam na gestão, inclusive o PT. A gente conversa
no dia a dia com os partidos, mas na minha cabeça está muito claro. A gente tem
etapas diferentes num governo. Você tem a etapa, no início, de consolidar os
projetos, organizar os planos, definir as diretrizes. No segundo ano é um
ano decisivo de área meio, de botar para funcionar, e a gente tá no momento
acelerando, a gente bateu recorde esse ano de investimento e vai bater no ano
que vem. Se perder o foco, quem sai perdendo é a cidade.”
UNIÃO BRASIL
“Foi um movimento que me deixou muito satisfeito do ponto de vista político por
vários motivos. Esse reencontro com Fernandinho (Coelho, deputado federal),
Miguel (ex-prefeito de Petrolina) e Antônio (atual secretário de Turismo da
PCR) tem também um caráter afetivo. Eu tive a oportunidade e eu vi meu pai
caminhando com eles. Eu tenho uma uma relação muito boa também com um
presidente nacional, Luciano Bivar, que é um parceiro que tem um diálogo sempre
próximo da gente. Antonio, com dois ou três meses de secretário, conseguiu
estruturar um Réveillon de grande porte, montar uma lei de incentivo ao
turismo, fazer o circuito natalino. Quando você junta a o arranjo político com
com a capacidade administrativa. Isso é muito bom.”
LULA E BOLSONARO
“Eu acho que esse ano, a gente começou a viver em uma espécie de primavera, né?
Em um tempo de coisas florescerem no Brasil que estavam esquecidas. Eu fui
deputado federal e do primeiro ao meu último dia de mandato eu fiz uma oposição
rigorosa a Bolsonaro, virei prefeito, continuei na oposição mas busquei
dialogar. Fui a Brasília, tentar falar com algum ministro, conversar com o
deputado da base. Vocês nunca vão me ver sem dialogar, sem conversar, porque eu
acredito e e faço. Mas o fato é que o Brasil hoje, ele vive um momento
diferente. Bolsonaro não fez nada pelo Recife nada esses dois anos do senhor.
Como gestor ele travou o Brasil todo. Era um governo desmontado. Eles gastavam
energia só com essas pautas absurdas que não não melhoram a vida de ninguém. O
Governo Lula, nesse primeiro ano, teve um papel fundamental de restabelecer
essa institucionalidade e lógico para a gente, como aliado político, isso é
muito importante porque a cidade está ganhando.”
DINO NO STF
Conversei com ele quando ele foi indicado e também na véspera da Sabatina (no
Senado). Eu acho Flávio Dino (até então filiado ao PSB) um dos maiores quadros
públicos brasileiros. Conheci ele quando fui pra São Luís do Maranhão
acompanhando o meu pai. Um cara muito fora da curva, uma pessoa brilhante,
preparada, de espírito público elevadísimo. Eu não tenho dúvida nenhuma que ele
talvez seja o mais brilhante Ministro do Supremo Tribunal tenha visto aí no
período recente. Eu disse inclusive a ele que meu coração estava dividido
porque minha outra metade do coração pensa na política e a política
perdeu.
SUBSTITUTO DO PSB
A gente entende que existem quadros no partido com alta capacidade para poder
conduzir o trabalho que Dino vinha fazendo. O PSB tinha um espaço, perdeu. É
natural que o PSB reivindique, que faça uma conversa. Agora, o que não é feitio
do nosso partido, vocês nunca vão ver, é uma conversa de nível rasteiro,
de chantagem, de ameaça, isso não existe. Mas quem vai conduzir isso é o
presidente Lula. É um princípio fundamental respeitar a autoridade do
Presidente da República. Essa história de querer enfrentar o presidente, querer
desmoralizar o governo, querer ir com isso. Isso a gente tem um presidente
eleito, um presidente aliado, um presidente está fazendo um bom trabalho no Brasil
que precisa do apoio do nosso conjunto e nós vamos apoiar a decisão do
presidente Lula.



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